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PD05 - Literatura Ed Básica - Módulo IV

LITERATURA NA EDUCAÇÃO BÁSICA – 5º PD - MÓDULO IV

Fábulas; Lendas; Poesias; Contos tradicionais do Brasil; Contos de fadas; A presença da fada madrinha nos contos infantis; A desconstrução do mundo das bruxas na literatura infantil; Livros e autores; Formando crianças leitoras

Fechamento e discussão sobre o curso e apresentação dos resultados do projeto de literatura

ATIVIDADE INDIVIDUAL/GRUPO:
• Participação do Projeto de Literatura Infantil proposto pelo ISE/Componente Literatura na Educação Básica e dos sub-projetos pelo grupo - Lendas Iguapenses
• Organização da exposição de materiais e dos resultados do Projeto de Literatura Infantil.: Culminância
• Projeto Revelando São Paulo – Vale do Ribeira



Começam a ser entregues acervos de literatura nas escolas
Portal MEC - Ana Guimarães 24.4.2008

No Dia Mundial do Livro, da Leitura e do Autor, comemorado nesta quarta-feira, 23, convém listar possibilidades de acesso gratuito à leitura. Apesar do crescimento econômico apresentado pelo Brasil nos últimos anos, estima-se que aproximadamente 10% da população sobreviva com um quarto do salário mínimo. De acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), esse grupo representava 19,98% dos brasileiros em 1990 e 11,11% em 2005. Para essas pessoas, um livro de literatura é um artigo de luxo.



Na escola municipal de educação infantil e fundamental Florestan Fernandes, localizada no município de Campo Mourão (PR), a maior parte dos estudantes é carente. Os quase mil alunos da instituição são filhos de pedreiros, jardineiros e trabalhadoras domésticas. “A renda deles é de no máximo três salários mínimos e as famílias têm, em média, quatro filhos”, relata a diretora da escola, Isabel Dias. A escola acaba de receber um acervo de literatura, enviada por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). São livros de contos, poemas, histórias em quadrinhos e até novelas especialmente desenvolvidas para a faixa etária.


Além de servir aos alunos da escola, os livros estão disponíveis também para os pais. “Eles, na maior parte, não completaram o ensino fundamental e também gostam dos livros de literatura infantil”, explicou Isabel. Eles têm uma carteirinha especial de pais para locar livros na biblioteca. Assim como na escola Florestan Fernandes, em 2008 todas as instituições de educação infantil e ensino médio passaram a contar com um acervo de literatura em suas escolas.

Trinta milhões de alunos brasileiros serão beneficiados com os novos acervos literários, graças ao PNBE, antes restrito ao âmbito do ensino fundamental. Os livros foram adquiridos em 2007 e já estão sendo distribuídos desde o começo deste mês. A expectativa é que os novos acervos cheguem a todas as escolas previstas pelo programa até, no máximo, o final de maio deste ano.

Além dos livros de literatura, o Portal Domínio Público oferece vídeos, fotos e textos, gratuitamente, na internet. É preciso, entretanto, de um computador com acesso à rede para entrar em contato com o acervo. Atualmente, estão sendo adquiridos 29 mil laboratórios de informática para as escolas do ensino fundamental. A meta é que, até 2010, todas as escolas públicas urbanas tenha computadores e conexão gratuita de banda larga à internet. Serão 55 mil escolas, onde estudam 84% dos alunos do ensino fundamental e médio.

FÁBULAS
Fábula é uma narrativa alegórica cujas personagens geralmente são animais colocados sob um perspectiva de ação humana, ou seja, falam e agem como seres humanos. Desde tempos remotos, esse gênero textual tem como objetivo a transmissão de preceitos morais.
A fábula, normalmente, usa a narrativa breve, em verso ou prosa. O conflito entre os personagens determina a ação e o desfecho (como em qualquer narrativa), porém, aqui, o desfecho é seguido de uma observação de conteúdo moral ou pedagógico. A fábula moderna quebra esse padrão e pode não apresentar, tão explicitamente, essa lição de moral.
ORIGEM:
As fábulas já eram contadas na Suméria no século XVIII a. C. Elas foram aperfeiçoadas pelo grego Esopo em meados do século VI a. C. e, mais tarde, século I d. C., o escravo romano Fedro (Caio Júlio) enriqueceu o estilo.
Intensas modificações sociais e históricas possibilitaram o surgimento de pensadores interessados nas fábulas que circulavam entre o povo: “Alegorias inspiradas num misto de dizeres populares e narrativas históricas” que comentavam satiricamente a sociedade. No século XVIII, La Fontaine resgatou o valor das fábulas a partir dos modelos latinos e orientais, introduzindo a obra do indiano Pilpay no Ocidente. Desde então, a fábula ganhou status de literatura. Mas, fora desse contexto oficial, as fábulas foram sendo recontadas, ampliadas e modificadas de acordo com os diferentes contextos sociais e históricos e estão presentes até hoje na “boca do povo”.
PERSONAGENS:
Em geral, animais que pensam, sentem e agem como os homens.
São verdadeiras personificações do ser humano.
- A RAPOSA: Símbolo de astúcia, esperteza
- O LEÃO: Símbolo de força, majestade, poder
- O TOURO: Símbolo de força
- O LOBO: Símbolo de poder, domínio, malvadeza
- A FORMIGA: Símbolo de perseverança, tranqüilidade, paciência
OBJETIVO:
As fábulas usam a ironia e a crítica para nos passar uma mensagem moral. Os animais se comportam como se fossem humanos, com seus defeitos e virtudes e, vivem situações que nos permitem refletir sobre o certo e o errado.
FABULISTAS:
Demétrio de Falero: Discípulo de Aristóteles, organizou a primeira coleção de fábulas mencionada pelos antigos, chamada de "Coletânea de Discursos Esópicos".
Acredita-se que sua coleção tenha sido o ponto de partida para uma série de outras tantas coleções que foram se modificando, ampliando e propagando ao longo dos tempos.
Esopo foi um figura meio lendária, pouco se sabendo de sua biografia. Alguns registros citam o autor como tendo sido escravo e depois liberto. Livre, percorreu várias regiões denunciando as fraudes dos sacerdotes do deus grego Apolo.
Esopo foi sempre descrito como uma figura estranha (feio, gago e corcunda), mas que, paradoxalmente, possuía o dom e a habilidade de contar histórias. Não há indícios de que tivesse escrito algo, mas atribui-se à sua autoria um conjunto de pequenas fábulas denominadas Fábulas Esópicas. O autor serviu de inspiração para fabulistas da Idade Média e chamou a atenção de filósofos como Sócrates, Aristóteles e Platão, que também estudaram as fábulas e viam nelas um bom exercício para desenvolver a competência argumentativa. As fábulas de Esopo são curtas e bem-humoradas com mensagens e ensinamentos que se relacionam com a vida cotidiana.
- La Fontaine: Jean de La Fontaine, fabulista francês, nasceu na região de Champanhe, em 1621, e faleceu em Paris em 1695. Ele também foi autor de poemas em que reconta fábulas greco–italianas e indianas.
Inspirado nas fábulas de Esopo, começou a escrever contos e fábulas que o tornaram famoso. Suas primeiras fábulas foram publicadas em 1668.
- Monteiro Lobato: José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté em 1882 e morreu em São Paulo em 1948. Durante toda a sua vida, Lobato desenvolveu um renovador projeto de produção literária no Brasil, especialmente no campo da literatura dirigida para os jovens. Nesse percurso, o autor foi responsável pela tradução e adaptação de inúmeras fábulas.
Nos anos 30, Tia Anastácia e Dona Benta recontaram as fábulas de Esopo e La Fontaine para os personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo: Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília.
DESFABULISTAS:
O pretenso moralismo das fábulas facilitou o surgimento das sátiras e paródias, recursos que se prestam a fazer rir da “seriedade” das fábulas. Escritores como Millôr Fernandes, Jô Soares e Luís Fernando Veríssimo “desfabularam”, desconstruíram os formatos típicos das fábulas, sempre com forte tendência satírica que reflete os acontecimentos políticos.
PROVÉRBIOS:
Os provérbios são conselhos, ensinamentos ou frases que podem substituir a moral da fábula. Geralmente passados de geração a geração.
Fábula "A Coruja e a águia" Provérbio: "Quem ama o feio, bonito lhe parece."
Fábula "A galinha dos ovos de ouro" Provérbio: "Quem tudo quer, nada tem."
Fábula "A raposa e as uvas" Provérbio: "Quem desdenha, quer comprar."
A Galinha e os Ovos de Ouro (Esopo)
Um camponês e sua esposa possuíam uma galinha que todo dia sem falta botava um ovo de ouro. Supondo que dentro dela devia haver uma grande quantidade de ouro, eles a mataram para que pudessem pegar tudo de uma só vez. Então, para sua surpresa, viram que a galinha em nada era diferente das outras galinhas. Assim, o casal de tolos, desejando enriquecer de uma só vez, acabam por perder o ganho diário que já tinham assegurado.
Moral da História:
Quem tudo quer acaba ficando sem nada.
LENDAS E MITOS DO FOLCLORE BRASILEIRO E REGIONAL
As lendas estão divididas por Regiões da provável origem.
Informamos que algumas lendas podem ser inadequadas para crianças, pelo seu conteúdo forte, como por exemplo a lenda do Romãozinho.
O caipora
É um Mito do Brasil que os índios já conheciam desde a época do descobrimento. Índios e Jesuítas o chamavam de Caiçara, o protetor da caça e das matas.
É um anão de Cabelos Vermelhos com pelo e dentes verdes. Como protetor das Árvores e dos Animais, costuma punir o os agressores da Natureza e o caçador que mate por prazer. É muito poderoso e forte
Seus pés voltados para trás serve para despistar os caçadores, deixando-os sempre a seguir rastros falsos. Quem o vê, perde totalmente o rumo, e não sabe mais achar o caminho de volta. É impossível capturá-lo. Para atrair suas vítimas, ele, às vezes chama as pessoas com gritos que imitam a voz humana. É também chamado de Pai ou Mãe-do-Mato, Curupira e Caapora. Para os Índios Guaranis ele é o Demoliu da Floresta. Às vezes é visto montando um Porco do Mato.
Uma carta do Padre Anchieta datada de 1560, dizia: "Aqui há certos demônios, a que os índios chamam Curupira, que os atacam muitas vezes no mato, dando-lhes açoites e ferindo-os bastante". Os índios, para lhe agradar, deixavam nas clareiras, penas, esteiras e cobertores. De acordo com a crença, ao entrar na mata, a pessoa deve levar um rolo de fumo para agradá-lo, caso o encontre.
Informações adicionais
Caipora- Nomes comuns: Caipora, Curupira, Pai do Mato, Mãe do Mato, Caiçara, Caapora, Anhangá, etc. Origem Provável: É oriundo da Mitologia Tupi, e os primeiros relatos são da Região Sudeste, datando da época do descobrimento, depois tornou-se comum em todo País, sendo junto com o Saci, os campeões de popularidade. Entre o Tupis-Guaranis, existia uma outra variedade de Caipora, chamada Anhangá, um ser maligno que causava doenças ou matava os índios. Existem entidades semelhantes entre quase todos os indígenas das Américas Latina e Central. Em El Salvador, El Cipitío, é um espírito tanto da floresta quanto urbano, que também tem os mesmos atributos do Caipora. Ou seja, pés invertidos, capacidade de desorientar as pessoas, etc. Mas, este El Cipitío, gosta mesmo é de seduzir as mulheres.
Conforme a região, ele pode ser uma mulher de uma perna só que anda pulando, ou uma criança de um pé só, redondo, ou um homem gigante montado num porco do mato, e seguido por um cachorro chamado Papa-mel. Também, dizem que ele tem o poder de ressuscitar animais mortos e que ele é o pai do moleque Saci Pererê. Há uma versão que diz que o Caipora, como castigo, transforma os filhos e mulher do caçador mau, em caça, para que este os mate sem saber.
CONTOS POPULARES
São contos tradicionais do Brasil e Portugal.
Muitos ensinamentos sobrevivem e são traduzidos de forma oral desde o tempo do descobrimento ou antes, já que muitos foram adaptados da Europa Medieval.
A menina dos brincos de ouro
Uma Mãe, que era muito má (severa e rude) para os filhos, deu de presente a sua filhinha um par de brincos de ouro. Quando a menina ia à fonte buscar água e tomar banho, costumava tirar os brincos e botá-los em cima de uma pedra. Um dia ela foi à fonte, tomou banho, encheu o pote e voltou para casa, esquecendo-se dos brincos. Chegando em casa, deu por falta deles e com medo da mãe brigar com ela e castigá-la correu à fonte para buscar os brincos. Chegando lá, encontrou um velho muito feio que a agarrou, botou-a nas costas e levou consigo.
O velho pegou a menina, meteu ela dentro de um surrão (um saco de couro), coseu o surrão e disse à menina que ia sair com ela de porta em porta para ganhar a vida e que, quando ele ordenasse, ela cantasse dentro do surrão senão ele bateria com o bordão (vara).
Em todo lugar que chegava, botava o surrão no chão e dizia:
Canta, canta meu surrão,
Senão te meto este bordão.
E o surrão cantava:
Neste surrão me meteram,
Neste surrão hei de morrer,
Por causa de uns brincos de ouro
Que na fonte eu deixei.
E o surrão cantava:
Neste surrão me meteram
Neste surrão hei de morrer,
Por causa de uns brincos de ouro
Que na fonte eu deixei

Todo mundo ficava admirado e dava dinheiro ao velho. Quando foi um dia, ele chegou à casa da mãe da menina que reconheceu logo a voz da filha. Então convidaram ele para comer e beber e, como já era tarde, insistiram muito com ele para dormir. De noite, já bêbado, ele ferrou num sono muito pesado.
As moças foram, abriram o surrão e tiraram a menina que já estava muito fraca, quase para morrer. Em lugar da menina, encheram o surrão de excrementos.


Trabalhos com contos populares “Os Contos da Nossa Cidade” e “Conto e Reconto”: dois projetos didáticos de leitura e escrita que podem conquistar sua turma para o mundo dos livros

Por Maria José Nóbrega, consultora pedagógica de LeituraS

Coloridos, carregados de sentidos cujas raízes remontam a tempos imemoriais, a linguagem dos contos tradicionais alimenta a imaginação dos leitores e abre espaços simbólicos para compreender a si mesmos e ao mundo. Não é a toa que diversos escritores se encantam com os contos (leia, nesta mesma publicação, entrevista com o escritor Ricardo Azevedo). A aproximação da escola com as manifestações culturais de seu entorno permite construir pontes entre o oral e o escrito; entre a língua em sua variedade oral e as chamadas variedades cultas.
A proposta a seguir é trabalhar os contos populares dentro da Pedagogia de Projetos. A característica essencial de um projeto de trabalho é ter um objetivo compartilhado por todos os envolvidos para se chegar a um produto final, em função do qual todos trabalham. Além disso, os projetos permitem dispor do tempo didático de forma flexível, pois sua duração corresponde ao tempo necessário para se alcançar um objetivo: pode durar dias ou alguns meses. Para sua execução é preciso planejar, prever, dividir responsabilidades, aprender conhecimentos específicos relativos ao tema em questão, usar recursos tecnológicos, aprender a trabalhar em grupo, controlar o tempo e, por fim, avaliar os resultados em função do plano inicial.

Projeto “Contos de Nossa Cidade”

Objetivos:
Ampliar o repertório de contos tradicionais.
Conhecer os contadores de histórias do município.
Identificar diferenças entre a modalidade oral e a escrita da língua.
Editar e revisar textos.
Desenvolvimento:
Proponha aos estudantes que investiguem, entre os moradores mais antigos da comunidade, se há algum contador de história ou alguém disposto a contar para a turma contos populares da região.
Agende uma data em que as pessoas convidadas possam comparecer à escola e contar suas histórias.
Se possível, grave em vídeo ou fita cassete para que, posteriormente, os estudantes possam usá-las para transcrever os contos selecionados e organizar uma antologia.
Finalizadas as apresentações, organize a turma em grupos, para editarem os contos recolhidos.
Peça que transcrevam o conto da maneira como foi falado e, depois, realizem apenas os ajustes necessários para converter o texto falado em uma peça escrita, buscando preservar o sabor da versão oral e o estilo do contador. Se esta etapa do trabalho puder ser desenvolvida na sala de informática, ficará muito mais fácil realizar as atividades de reescrita e de revisão dos textos.
Concluída a etapa anterior, é hora de escolher um título para a coletânea. Pode ser o título de um dos contos, como é comum acontecer em antologias de contos, crônicas e poemas. E se cada conto ganhasse uma ilustração? E qual deve ir para a capa?
Ajude-os a decidir a seqüência dos contos para elaborar o sumário. Seria interessante, ainda, incluir uma pequena biografia dos contadores que participaram do projeto.

Projeto “Conto e Reconto”
Objetivos:
Ampliar o repertório de contos tradicionais.
Apreciar o estilo de diferentes escritores, identificando e analisando as escolhas estilísticas que realizam ao recontar um conto tradicional.
Refletir a respeito das operações envolvidas no reconto de uma história: omissões, acréscimos, inversões, substituições.
Editar e revisar textos.
Recontar histórias possibilita aprender a respeito do funcionamento da linguagem escrita. Recontar não é mera reprodução, é recriação, pois ainda que o escritor tenha o compromisso de preservar o enredo, imprime à história seu estilo próprio. A proposta a seguir permite que os estudantes ampliem seu repertório de contos, bem como aprendam a ajustar a linguagem às suas intenções comunicativas, isto é, aos efeitos que esperam provocar em seus leitores.
Desenvolvimento:
Com a ajuda dos estudantes, faça um levantamento das antologias de contos populares disponíveis no acervo da biblioteca municipal, escolar ou da sala de leitura.
Promova a leitura de vários contos, diversificando os leitores: ora você lê para a turma, ora um dos estudantes lê para os colegas um texto preparado previamente.
Dedique algumas aulas para que os estudantes possam comparar diferentes versões de um mesmo conto, como sugerimos acima, e, assim, possam identificar as marcas do estilo de cada autor.
Organize a turma em duplas e peça que selecionem um dos contos para produzir uma nova versão para ele. A partir dos exemplos comentados, proponha que, antes de começar a escrever, pensem como querem recontá-lo: substituindo palavras difíceis por outras mais simples para facilitar a compreensão, resumindo alguns trechos para evitar digressões, transformando passagens de seqüência narrativa em diálogo para dar maior leveza etc.
Após a produção, reserve algumas aulas para reformular o texto. Afinal, um texto bem escrito é normalmente fruto de sucessivas versões. Para facilitar essa fase do trabalho, você pode promover o intercâmbio entre as duplas: uma dupla compara as duas versões do conto escolhido pela outra, elaborando uma pauta com sugestões para a revisão. Insista que a proposta não é deixar o texto ficar igual ao modelo, mas potencializar as intenções de cada dupla.
Concluídas as atividades de edição e de revisão, elabore o sumário e, lembre-os de incluir a referência bibliográfica dos contos que foram recontados. O formato que a publicação vai assumir dependerá das condições da escola e da comunidade: pode ser uma versão digital para leitura na página da escola na internet, uma brochura com os textos digitados e formatados com cuidado ou, até mesmo, uma edição manuscrita com caligrafia caprichada.
Os contos tradicionais no Brasil
O estudioso do folclore brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1898-1986)1, no prefácio que produz para Cantos Populares do Brasil2, de Sílvio Romero (1851-1914) afirma que esta obra e Contos Populares do Brasil constituem “o primeiro documentário da literatura oral brasileira”. A trilha aberta pelo crítico, folclorista e historiador da literatura brasileira foi percorrida, depois, pelo próprio Cascudo e por muitos outros escritores e pesquisadores.
Outro pioneiro é, sem dúvida, Figueiredo Pimentel (1869- 1914) com Contos da Carochinha. Preocupado em popularizar o acesso ao livro, Pimentel reuniu nesta obra contos populares traduzidos ou recolhidos diretamente da tradição local. Inaugurava-se com ele uma consistente linhagem de escritores de literatura infantil que mantém uma estreita relação com a literatura de tradição oral que constitui o substrato básico para a literatura produzida para crianças. Entre eles estão Monteiro Lobato, Henriqueta Lisboa, José Lins do Rego, Ana Maria Machado, Ricardo Azevedo e tantos outros escritores que não resistiram à tentação de “meter a sua colher”, ou melhor, a sua caneta, neste maravilhoso repertório, emprestando a ele seu talento pessoal. Encontre nas prateleiras estas e outras preciosidades e mergulhe com sua turma em um mar de histórias!

Algumas obras de tradição popular nos acervos do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola)



1 Luís da Câmara Cascudo no PNDE:
Faz de conto. Luís da Câmara Cascudo e outros, Global, PNBE 2002.
Contos tradicionais do Brasil. Luís da Câmara Cascudo, Global, PNBE 2003.
A princesa de Bambuluá. Luís da Câmara Cascudo, Global, PNBE 2005 (Acervo 7)
O marido da mãe d’água e A princesa e o gigante. Luís da Câmara Cascudo, Editora Gaia, PNBE 2005 (Acervo 15).
2 As obras de Sílvio Romero – Cantos Populares do Brasil e Contos Populares do Brasil – são publicadas pela Editora Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo.

O Conto de Fadas

O Imaginário Infantil e a Educação
Nelly Novaes Coelho¹

Desvendar o mistério e o encantamento que envolve os contos de fada, ao longo da história da humanidade, é a tarefa preferida da professora Nelly Novaes Coelho que nos pergunta: por que tais histórias tão antigas conti­nuam a interessar leitores adultos e crianças? Neste artigo, direcionado ao professor de educação infantil, ela busca respostas para essa questão nos apresentando uma abordagem extremamente enriquecedora.
Sem dúvida, tão antigo como a humanidade é o ato de contar histórias. E também a sedução que as narrativas maravilhosas exercem sobre os homens, da infância à velhi­ce. É curioso notar que, hoje, em pleno mundo do fantástico progresso tecnológico, da velocidade dos multimeios de comunicação de massa e do império da imagem, os con­tos de fadas estão de volta. Até os “distraídos” podem perceber que o mercado editorial vem sendo invadido pela grande voga da magia do maravilhoso, pela moda dos chama­dos “clássicos” da literatura universal ou pelas narrativas maravilhosas em geral, como o conto de fadas. Ao que parece, a realidade concreta que nos rodeia já não basta.
Mas se pensarmos na distância que existe entre o nosso tempo ultramoderno e os tempos primitivos ou arcaicos (nos quais se perdem as origens dessas narrativas fabulosas, surgidas há séculos em várias regiões da Europa), torna-se inevitável a pergunta: por que tais histórias tão antigas continuam a interessar os leitores (crianças ou adultos)? Por que o destino da Gata Borralheira ou Cinderela, ou o da Branca de Neve, da Bela Adormecida, da Bela e a Fera e outras e outras continuam a interessar? Que importância pode ter para os leitores de hoje as tristezas do Patinho Feio e sua lenta transformação em Cisne? Ou a desobediência da Chapeuzinho Vermelho, que vai levar bolo para a avó e escolhe o perigoso caminho da floresta, em lugar da estrada reta e clara, e assim atrai o Lobo, que acaba devorando ela e a avó?
Para podermos responder a essas interrogações, é preciso lembrar que tais narrati­vas se fundamentam em “lições de vida” dadas pela sabedoria ancestral – a sabedoria dos povos, que, desde a origem dos tempos, vêm constituindo a humanidade em con­tínua evolução.
Na verdade, por mais que os homens transformem o mundo em que vivem com sua inteligência e trabalho, sua natureza humana não muda. Nela se misturam as “paixões da alma” (amor, ódio, amizades, medo, vontade de poder, ideais, desejos, inveja, ciú­mes, solidariedade, fraternidade, etc.) e as “necessidades básicas” do ser humano (ar para respirar, alimento para matar a fome e proteção para o corpo). Tanto as “paixões” quanto as “necessidades básicas” são a matéria-prima dos contos de fadas e de todos os livros que venceram o tempo e através de milênios ou séculos continuam a interessar os leitores ou ouvintes.
E é graças a essa “matéria-prima” humana, somada ao seu “veículo de expressão” – a linguagem narrativa – que os contos de fadas e os “clássicos” estão novamente entrando nas escolas. Já é ponto pacífico o fato de que cabe à educação moderna (ou pós-moderna?) a tarefa de oferecer caminhos para a formação da consciência de mundo da criança (ou do educando em geral), e não apenas servir como instrumento de informações. Em um mundo como o nosso, dinamizado pelas multilinguagens visuais, sonoras e velozes, a leitura da palavra, isto é, do texto (principalmente literário, poético), ,faz-se cada vez mais necessária para que as novas gerações não se imobilizem como “gerações sem palavras”. Gerações sem consciência de si mesmas, sem consciência histórica e, conseqüentemente, sem consciência crítica. A ausência de autoconsciência redunda em indivíduos sem autonomia interior, meros joguetes das palavras-de-ordem da sociedade de consumo e lucro, que já se instalou no mundo e o transformou na “al­deia global” de que fala McLuhan.
Sociedade bela/horrível (ainda em processo de formação) que ao mesmo tempo em que gera o progresso e melhora (às vezes desequilibra) a vida no planeta também provoca a alienação humana porque atrai o indivíduo para fora de si mesmo, alimenta-o apenas de exterioridades; impede a formação da sua consciência crítica; impede que cada eu adquira a consciência de seu lugar no mundo e de sua relação essencial com o outro. Uma das verdades do nosso tempo é que sem essa conscientização do eu em relação ao outro e sem o domínio da palavra que nomeia e expressa as realidades não há plena realização existencial.
Um dos fecundos caminhos para essa autoconscientização é a leitura: é o corpo a cor­po do eu-leitor (ou ouvinte) com as experiências de vida do outro, que a literatura lhe ofere­ce. E como esse “corpo a corpo, essa conscientização do eu em relação ao outro precisa começar desde cedo (quando a criança passa a perceber o mundo à sua volta), um dos meios que os adultos podem usar para orientá-las é o conto de fadas. De maneira inconsciente e divertida, a criança entra em contato com a sabedoria humana que vem da origem dos tempos, foi guardada pela memória dos povos e transmitida pelo “contar histórias”. Desse fenômeno tiramos uma lição: o “contar histórias”, mais do que entretenimento prazeroso, é uma experiência vital, é um exercício de viver. Como disse Cecília Meireles:
Os livros que têm resistido ao tempo são os que possuem uma verdade capaz de satisfazer a inquietação humana, por mais que os séculos passem.
Estão nesse caso os contos de fadas, os clássicos universais. Todos eles, por meio de mil variantes das situações narradas, tramam-se em torno de algumas poucas inva­riantes, que correspondem às necessidades básicas do ser humano. Tal como existe um código genético fisiológico (DNA), pelo qual a natureza “programa” cada ser humano, também deve existir um “código espiritual” que, desde a origem dos tempos, “programa” a alma da humanidade. Nos clássicos infantis (contos de fadas, contos maravilhosos, fábulas...) é essa “alma da humanidade” que nos fala. As grandezas e as misérias do ser humano estão ali transformadas em narrativas mágicas, inverossímeis do ponto de vista da lógica ou da realidade comum, mas que seduzem e convencem porque, de maneira inconsciente ou subliminar, tocam o leitor em suas aspirações vitais mais profundas e, as mais das vezes, inconscientes.
Assim, por exemplo, em Branca de Neve, na trama criada entre a Rainha madrasta, a Branca de Neve e os Sete Anões, entram em confronto a inveja ou o ciúme que a beleza e a bondade podem despertar; valorizam-se a paciência diante de um destino adverso e a busca de outros caminhos para fugir dele; exalta-se a solidariedade a ser dada a quem necessita; recompensa-se a virtude e castiga-se o mal; exalta-se o poder regenerador dos maus, etc.
São experiências humanas que o imaginário do leitor vivencia de maneira inconsciente, e, com elas, seu mundo interior vai-se enriquecendo. Nas “transformações” que são co­muns nos contos de fadas (a do Patinho Feio em Cisne; do Sapo ou da Fera em Príncipe, etc.) estão patentes as transformações pelas quais todo ser humano precisa passar (da infância à maturidade) para se realizar em plenitude quando persegue um ideal de vida.
Aliás, há um perfeito paralelismo entre os contos de fadas e a vida humana, quando a entendemos como um percurso, uma caminhada, uma viagem em busca da auto-realização. Nesse “percurso” surgem obstáculos (inimigos, maldades, bruxas, madrastas...), mas também auxílios (amigos, fadas, anões...), e o final é sempre feliz: a realização do ideal.
Como se vê, em sua essência, a estrutura dos contos de fadas corresponde às coordenadas da vida humana. Todos nós, para nos realizar, precisamos ter um projeto de vida (ou vários projetos sucessivos); entregamo-nos à “caminhada” para realizá-lo, encontramos os inevitáveis “obstáculos” que precisam ser superados por nossa paciência, esforço ou obstinação (ou por “auxiliares” das mais diversas naturezas), e. por fim, a realização: o “final feliz”. Na verdade, o ser humano veio para “dar certo”. Quando não dá é porque algo não vai bem no mundo à sua volta.
Nesta nossa época de contrastes e caos, é fundamental que os adultos que lidam com as crianças (principalmente os professores) se dêem conta do valor ético-existen­cial dos contos de fadas para o “povoamento” do imaginário infantil. É no “imaginário” que, afinal, nossa vida se resolve (muito embora não nos demos conta disso).
Ao ouvirem (ou lerem) tais contos, as crianças, mesmo sem o saber, estão formando as leituras de mundo que as ajudarão nos caminhos a serem trilhados na vida. Em cada uma dessas histórias maravilhosas, há uma verdade vital. Neste nosso mundo-cão do “vale tudo” e de ausência de parâmetros para o comportamento humano, esses exemplos de vida, em que a virtude é exaltada, o mal é castigado e os altos ideais saem vitoriosos, sem dúvida podem ser ótimos “guias iluminadores” para os pequenos aprendizes de vida e de leitura.
Enfim, o que nos explica o continuado sucesso dos contos de fadas e dos clássicos infantis em geral é o fato de que sua matéria-prima é extraída de verdades humanas e, portanto, não envelhece. Ou, por outra, é fundamentada em necessidades humanas básicas: o fundo impulso de auto-realização do indivíduo; o desejo do eu de ser aceito pelo outro (daí a necessidade visceral de afeto, de amor); a vontade de poder (que leva o forte a explorar o fraco); a luta pela preservação física (contra a fome, o esforço desumano, a ameaça de morte, a defesa contra a violência, etc.). Necessidades que, uma vez frustradas, geram as tragédias (ou comédias, dependendo da ótica pela qual sejam olhadas), os dramas ou peripécias que, transformados em palavras, vêm tecendo a grande literatura (para adultos ou crianças) que, desde os tempos ancestrais, vem seduzindo a humanidade. E para além do prazer e das emoções do leitor, ao participar de tais aventuras, lhe dá grandes lições de sabedoria e de vida. É preciso descobrir que os contos de fadas têm na base a vida real, e que a literatura infantil não é “infantil” ou pueril, como o senso comum (distraído!) a considera. E acima de tudo é um excelente meio de educação a ser explorado.
¹Doutora em Letras, livre docente e professora titular da F.F.L.C. H. da Universidade de São Paulo atuando no Curso de Pós Graduação. Criadora da disciplina de Literatura Infantil na Faculdade de Letras. Entre suas publicações destacam-se: dicionário crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira (Edusp), Literatura Infantil (Moderna) O Conto de fadas (D.C.L.), Literatura: arte, conhecimento e vida (Petrópolis), Dicionário Crítico de Escrituras Brasileiras (Escrituras).
Fonte: Revista Criança, janeiro de 2005: MEC
O Papel dos Contos de Fadas na Construção do Imaginário Infantil
Isabel Maria de Carvalho Vieira¹
A sensibilidade e o conhecimento profundo do psiquismo humano na sua relação com os contos de fadas nos são revelados pela professora Isabel Maria de Carvalho Vieira nesta abordagem psicanalítica da questão. O artigo em tela tem o mérito de ampliar os conhecimentos dos professores, trazendo à tona questões que se encontram subjacentes a esse tipo de literatura.
Desde os primórdios da humanidade, contar histórias é uma atividade privilegiada na transmissão de conhecimentos e valores humanos. Essa atividade tão simples, mas tão fundamental, pode se tornar uma rotina banal ou representar um momento de excepcional importância na educação das crianças.
O estudo e a discussão em torno da adequação e da validade da narrativa de contos de fadas para crianças, especialmente para crianças pequenas, vem perdurando por gerações e gerações de professores, psicólogos, psicanalistas como também entre orientadores educacionais e pedagógicos. Os artistas que trabalham em espetáculos infantis também discutem a questão, e os pais sentem-se atordoados diante da diversidade de opiniões ouvidas e da amplitude das divergências apresentadas.
Há quem seja contra e quem seja a favor dos contos de fadas. Há quem con­sidere encantadores os mitos e as lendas, como há quem os rejeite como mórbidos e perturbadores, mas atualmente não há mais quem discuta sua importância, sua atuação decisiva na formação e no desenvolvimento do psiquismo humano.
Desde os primórdios da humanidade, contar histórias é uma atividade privile­giada na transmissão de conhecimentos e valores humanos. Essa atividade tão simples, mas tão fundamental, pode se tornar uma rotina banal ou representar um momento de excepcional importância na educação das crianças.
O estudo e a discussão em torno da ade­quação e da validade da narrativa de contos de fadas para crianças, especialmente para crianças pequenas, vem perdurando por gerações e gerações de professores, psi­cólogos, psicanalistas como também entre orientadores educacionais e pedagógicos. Os artistas que trabalham em espetáculos infantis também discutem a questão, e os pais sentem-se atordoados diante da diver­sidade de opiniões ouvidas e da amplitude das divergências apresentadas.
Há quem seja contra e quem seja a favor dos contos de fadas. Há quem con­sidere encantadores os mitos e as lendas, como há quem os rejeite como mórbidos e perturbadores, mas atualmente não há mais quem discuta sua importância, sua atuação decisiva na formação e no desen­volvimento do psiquismo humano.
Aqueles que combatem os contos de fadas supõem que a violência das situa­ções que neles se apresentam habitual­mente, a personificação do bem e do mal em determinadas personagens, as solu­ções mágicas para os problemas mais complexos e toda a tensão emocional provocada pela narrativa desses contos vão proporcionar às crianças uma visão muito negativa da realidade, um conta­to desnecessário com o “lado negro” do homem, talvez até uma mobilização para as pequenas e as grandes maldades que podem ser feitas com outras pessoas. Muitos acreditam que para as crianças mais sensíveis a narrativa dos contos de fadas pode provocar sofrimentos e an­gústias, que poderão repercutir negativa­mente na sua vida futura, gerando muitos medos e inseguranças.
Estamos do lado daqueles que são a favor dos contos de fadas, que acreditam no valor e na verdade que se revelam nes­sas histórias arcaicas, na força e na cora­gem que podem surgir, exatamente, pelo impacto do encontro direto com a fraqueza, o desamparo, o medo, a necessidade de luta para alcançarmos nossos objetivos.
Os acontecimentos objetivos da vida da humanidade são a nossa história. Os acontecimentos subjetivos, as vivências interiores criaram as estórias. A história fala-nos dos acontecimentos conhecidos da realidade externa, do desenrolar dos fatos que foram sendo registrados nas comunidades e que explicam, em parte, como se efetivaram as realizações culturais dos grupos humanos, como se estabeleceram os grupos étnicos, como se definiram as nações. As estórias falam-nos da realidade interior na construção das nossas culturas, de como se consti­tuíram as estruturas psicológicas das pessoas e dos grupos humanos.
As histórias de ficção, e muito especialmente as narrativas que vêm do folclo­re, os mitos, as lendas, os contos de fadas, se apresentam como a maneira mais significativa que a humanidade encontrou para expressar aquelas experiências que não encontram condições de se explicar no esquema lógico-formal da narrativa intencionalmente objetiva. A ficção objetiva os fatos e as verdades que não podem ser expressos pela razão, que não são identificados pela lógica. E é por isso que as histórias são tão temidas, e é também por isso que são tão importantes.
Os contos de fadas são narrativas simbólicas extremamente simples, primitivas, capazes de transmitir experiências subjetivas complexas e vivências emocionais delicadas às pessoas mais ingênuas e às crianças. As lendas e as histórias de fadas são incluídas hoje no acervo bási­co da literatura infantil porque as crianças se apossaram delas, enquanto o público mais sofisticado as considerava uma literatura de menor significado. Mas não há quem desconheça o quanto os grandes artistas, inclusive escritores de todos os tempos, buscaram e buscam inspiração constantemente nas manifestações mais primitivas da sua cultura, no folclore.
Há alguns aspectos bem interessan­tes a considerar quando pretendemos nos deter na reflexão e no estudo dos contos de fadas. Em primeiro lugar, o fato de que eles falam sempre de relacio­namentos humanos primitivos e por isso exprimem sentimentos muito arcaicos do psiquismo humano. Mas porque arcai­cos não deixam de ser atuais, talvez até extremamente atraentes e instigadores porque mostram o que se evita manifes­tar nas nossas sociedades contemporâ­neas: a raiva, a inveja, a mentira, também o amor, a fidelidade, a generosidade, com suas enormes conseqüências no viver humano. Nesse sentido, esses contos, como as lendas e os mitos, estão embe­bidos de princípios éticos universais. Ou­tro aspecto extremamente importante a considerar é que os contos de fadas, sob múltiplas variações, apresentam sempre uma mesma estrutura e temática: falam da busca da totalidade psíquica, da ple­nitude do ser.
Todo conto de fadas gira em torno de um herói ou heroína que apresenta sua origem: pai, mãe, terra, cultura. O herói ou heroína vivem sempre dificuldades grandes e chegam a um momento de im­passe em que alguma coisa extraordinária precisa acontecer para que haja uma so­lução satisfatória. Entram então em ação múltiplos poderes naturais e sobrenaturais ou mágicos, tanto do lado do bem como
do lado do mal: inimigos terríveis, com­panheiros fiéis, personagens imbuídos de insegurança, de esperteza, de coragem, figuras transcendentes como fadas, an­jos, demônios e dragões. A luta é sempre extremamente difícil, mas, ao final, faz-se a justiça, encontra-se a paz, a harmonia, vence o bom e o bem.
Todo conto de fadas constitui-se como uma “saga de herói”. No desen­volvimento da história, vai-se delineando a luta do herói que não se apresenta, ini­cialmente, como uma proposta em que todos os elementos da situação lhe estão naturalmente apresentados; ao contrário, no decurso da sua própria ação ele tem de descobrir os elementos que lhe faltam para compreender o processo em que está inserido e, assim, poder construir situações novas que possam vir a lhe favore­cer na luta pelos seus objetivos. Nessa luta vão sempre apare­cer dificuldades extraordinárias que exigirão muita disposi­ção e astúcia para ser contor­nadas e venci­das – esta é a saga do herói, de cada um de nós, que, ao final, deveria ser culmi­nada pela possibilidade de vencer todas as dificuldades. Nesse sentido, cada uma dessas estórias é um estímulo encoraja­dor na luta da vida, em que se valorizam os princípios éticos na relação com o ou­tro: o Mal é denunciado, e o personagem mau é castigado; o Bem é valorizado, e o personagem bom é premiado. A proposta e a realização básica são sempre de plena vitória final do bom e do Bem.
Carl Gustav Jung, o grande psiquiatra suíço que fundou a Escola de Psicologia Analítica, diz que “mitos e contos de fadas dão expressão a processos inconscientes, e sua narração provoca a revitalização desses processos, restabelecendo a co­nexão entre o consciente e o inconsciente”. Como Freud, ele entende que o sonho é uma forma de representação simbólica dos processos psíquicos individuais, e entende o mito, a lenda e o conto de fa­das como representações simbólicas de processos psíquicos coletivos. A discus­são sobre a pertinência da compreensão dos contos de fadas como expressão do Inconsciente Coletivo, no dizer de Jung, ou da Herança Arcaica, termo usado por Freud, daria um outro artigo, depoimen­to ou curso em que precisaríamos definir mais precisamente esses conceitos e re­ferendá-los a estudos antropológicos, so­ciológicos, psicológicos.
O que nos importa aqui, neste depoi­mento, é referendar a importância dos contos de fadas no desenvolvimento intelectual e emocional das crianças. Todas as pessoas que trabalham com educação e saúde engendram esforços para propor­cionar condições que favoreçam a inte­gração psicológica. Se os contos de fada se apresentam com possibilidades de favorecer essa integração, não há como desconside­rá-los. Se a criança pode aprender, por meio deles, a identi­ficar e a reconhecer, nos outros e em si mesma, pensamentos e sentimentos que ajudam ou atrapalham sua relação consigo mesmo e com os ou­tros, se aprende a conviver com naturalida­de com fortes elementos do inconsciente da humanidade e do seu próprio incons­ciente, estaremos lhe oferecendo melho­res condições para crescer e amadurecer por meio da narrativa e da reflexão dos contos de fadas. Essa proposta poderia e deveria ser um trabalho sistematizado e permanente, e as pessoas incumbidas de realizá-lo (professores, orientadores, psicólogos e artistas) precisariam ter, elas mesmas, um desenvolvimento pessoal e uma intimidade com seus próprios inconsciente, para poderem favorecer (ou, pelo menos, não atrapalhar) o encontro das crianças com seu mundo interno.
¹Psicanalista, Psicóloga, Professora de Literatura Infantil, Técnica de Educação.
Livros e leitura entre professores e alunos
Por Regina Zilberman*
As pessoas aprendem a ler antes de serem alfabetizadas. Desde pequenos, somos conduzidos a entender um mundo que se transmite por meio de letras e imagens. Mesmo as crianças que residem longe dos grandes centros urbanos ou são muito pobres, não dispondo, pois, de livros e impressos, conhecem o significado de certas siglas e sabem identificar as figuras e os nomes de personagens, divulgados por meio da propaganda audiovisual, da televisão, das histórias ouvidas e reproduzidas.
O universo da leitura envolve o ser humano por todos os lados, estimulando a aprendizagem, tarefa delegada à escola por ocasião da alfabetização, nos primeiros anos da educação fundamental.
Nem sempre os resultados são positivos, e muitas crianças acabam por ficar excluídas do mundo das letras, aquele mesmo que as rodeia e que gostariam de decifrar com habilidade e fluência.
A literatura infantil pode ajudar o professor a alcançar um resultado melhor, colaborando para o sucesso de seu trabalho. Os livros para crianças despertam o gosto pela leitura, não têm propósito pedagógico e ainda divertem. Os alunos certamente apreciarão acompanhar, nas obras, as aventuras de personagens parecidas com eles, ação que os levará a buscar mais livros, solidificando sua competência de leitura.
A primeira medida a ser tomada pelo professor é, portanto, colocar os livros ao alcance dos alunos em sala de aula. A proximidade entre o leitor e o texto, na forma de livro, motiva o interesse e induz a leitura, mesmo no caso de pessoas que ainda não foram alfabetizadas. Por isso, publicações destinadas a elas apresentam muitas ilustrações, pois a imagem captura a atenção do leitor e, por estar acoplada à escrita, suscita o interesse por seu entendimento.
Se esse princípio é válido para todos os leitores, é ainda mais decisivo no caso das crianças, cuja curiosidade é grande, estando sua atenção fortemente voltada para o visual. A atração do livro impresso, com suas figuras e texto, incita o leitor, e esse entrega-se à sedução da obra.
Várias publicações de autores brasileiros, destinadas ao leitor aprendiz, podem colaborar com o professor, como é caso da Coleção Gato e Rato, de Mary e Eliardo França, dirigida a crianças em período da alfabetização. Num dos volumes, A bota do bode, conta-se o que sucedeu ao bode, que encontrou uma bota e inicialmente não sabe o que fazer, até achar uma saída para a situação inusitada. O vocabulário escolhido é tão compreensível quanto legível, formado, na maior parte, por dissílabos e paroxítonas, em que cada sílaba contém apenas uma consoante e uma vogal. Portanto, o relato pode ser entendido por qualquer leitor, mesmo o que começa a decifrar a escrita. Requerendo um mínimo de desenvoltura, A bota do bode lida com uma história em que um problema aparentemente sem solução instiga a continuidade da leitura e chega a um final engraçado.
As ilustrações reforçam o interesse do leitor, pois o dilema da personagem, diante do objeto imprevisto, expressa-se pela imagem, reforçando as possibilidades de decodificação da escrita.
A bota do bode, a exemplo das outras obras que compõem a Coleção Gato e Rato, é adequada a um leitor que se inicia nos livros. Podem ser as crianças que freqüentam as primeiras séries do ensino básico, porque é nessa etapa que se prevê a alfabetização dos alunos. Porém, há estudantes que, com mais idade e, portanto, mais acostumados à circulação de textos, ainda não dominam a leitura com a familiaridade desejada. Também nesse caso é apropriada a indicação de obras como as de Mary e Eliardo França, porque as narrativas são divertidas, conduzindo a atenção do leitor até o final.
O leitor iniciante não tem idade; e cada fase de sua vida é um bom momento para levá-lo a gostar de livros de ficção, pois as histórias estimulam seu imaginário, fortalecem sua identidade, ajudam-no a pensar melhor e a resolver problemas. Com o passar do tempo e o aumento da bagagem de livros e de experiência, os leitores ficam mais exigentes, solicitando mais e melhores livros.
Para tomar a segunda medida, o professor precisa ficar atento à destreza e interesse de leitura por parte dos alunos. Ele será compreensivo com o estudante que apresenta dificuldades para acompanhar o texto, apoiando-o com a indicação de produtos ao mesmo tempo bons e fáceis de entender. Se as coisas fossem mães, de Sylvia Orthof, é uma dessas obras que estimula a imaginação da criança, e também sua inteligência, sem apresentar dificuldades de interpretação. A idéia original é muito criativa, partindo da noção de que, se os seres animados têm mães, é de se cogitar que o mesmo ocorra com os inanimados ou mágicos, como sereias, bruxas e fadas. Esse é o jogo proposto pelo livro, que não se encerra quando chega às últimas linhas, pois o leitor pode dar continuidade à proposta de conjeturar o que ocorreria “se as coisas fossem mães”.
Com estudantes que requerem textos mais longos e narrativas mais complexas, o professor pode escolher entre gêneros diversos.
Os contos de fadas atraem o interesse de muitos, já introduzidos, por exemplo, a Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela, quando pais, tios, irmãos, avós ou outros lhes narram as aventuras dessas personagens. Histórias em quadrinhos, filmes, desenhos na televisão, entre outras formas de difusão de relatos folclóricos, reforçam a popularidade daqueles heróis. Assim, a sala de aula pode ser um bom lugar para retomar esse conhecimento e, sobretudo, ampliá-lo, pois há livros que, recorrendo ao conto de fadas, propõem alternativas inovadoras para figuras tradicionais.
Em A fada que tinha idéias, Fernanda Lopes de Almeida cria a personagem Clara Luz, que, insatisfeita com o papel convencional usualmente atribuído a seres como ela, permanentemente inventa novidades. No começo da história, a pequena fada é advertida pelos adultos, que julgam inadequado seu comportamento; na seqüência, porém, ela demonstra que suas atitudes são válidas para si mesma e para todo o grupo, vindo a representar a vontade de as crianças serem respeitadas pelos mais velhos.
Nos contos tradicionais, a fada é a personagem boa, enquanto a bruxa é má, prejudicando os demais. A bruxinha atrapalhada desmente esse padrão, pois a protagonista das histórias curtas de Eva Furnari suscita a simpatia do leitor, que experimenta com ela as dificuldades de afirmação no mundo adulto. Por sua vez, em O fantástico mistério de Feiurinha, Pedro Bandeira contraria outro estereótipo do conto de fadas clássico: o da jovem que, por ser bela, seduz o príncipe encantado.
No livro, a personagem principal é a menina feia, de quem depende o mundo das fadas para não desaparecer, levando com ele o imaginário representado pela infância.
Nos livros de Fernanda Lopes de Almeida, Eva Furnari e Pedro Bandeira, o leitor acostumado ao conto de fadas, que conheceu por ouvir, ler ou ver, passa por um questionamento que o torna mais crítico e exigente. O professor, paciente e compreensivo com o leitor vagaroso, estimula agora o estudante que pede mais livros, ajudando-o a não se conformar com o convencional e o consagrado.
Quando o aluno chega a esse ponto, o professor converte-se em seu companheiro de leituras, dispondo de um cardápio de obras em que se mesclam a aventura, o amadurecimento interior e a observação do contorno social. Narrativas de aventuras aparecem nas obras de Monteiro Lobato, por exemplo, ou nos romances policiais de João Carlos Marinho, de que O gênio do crime é um exemplo. Lygia Bojunga Nunes, em A bolsa amarela, oportuniza ao adolescente adentrar-se na sua intimidade, onde se alojam desejos insatisfeitos e aspirações, que ele terá de expressar, para se satisfazer consigo mesmo. Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado, colabora para a criança entender o passado de sua família e consolidar sua identidade pessoal, quando não étnica e social, como revelam Do outro lado tem segredos e Raul da ferrugem azul, da mesma autora.
O estudante pertence também a uma época e a uma sociedade, que, traduzidas pelas obras de ficção, podem levá-lo a tomar uma posição perante problemas como a desigualdade econômica, o racismo ou a opressão. Coisas de menino, de Eliane Ganem, e Os meninos da Rua da Praia, de Sérgio Capparelli, expõem as diferenças entre ricos e pobres, enquanto Nó na garganta, de Mirna Pinsky, afirma que a cor da pele não é justificativa para valorizar ou diminuir as pessoas. A droga da obediência, de Pedro Bandeira, e A casa da madrinha, de Lygia Bojunga Nunes, por sua vez, mostram ser preciso lutar pela liberdade, quando os poderosos procuram sufocar o crescimento intelectual dos indivíduos.
Professores e alunos não ficarão indiferentes à proposta de livros como os enumerados antes. Aprenderão juntos que a literatura, dirigida ou não para as crianças, lhes proporciona grande variedade de diversão e sabedoria, aprofundando as relações humanas na escola e sua participação na sociedade.
Regina Zilberman é professora de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.



A leitura de cada dia
Uma atividade permanente de leitura pode começar com uma semana de leitura de contos populares. Daí, se eles gostarem...
Por Maria José Nóbrega, consultora pedagógica de LeituraS
Ler histórias para crianças é uma prática importante para despertar nelas a curiosidade e a imaginação, como também para estimulá-las a refletir sobre temas delicados e complexos da experiência humana. Esta prática, se regular, faz com que as crianças construam um repertório de histórias, aprendam como funciona a linguagem que se usa para escrever, mas, principalmente, encontrem espaço para expressar seus medos e inquietações.
A seguir, avalie algumas sugestões para organizar com sua turma uma Atividade Permanente de Leitura. A proposta é que sejam ações que se repitam de modo regular (por exemplo, diariamente ou semanalmente), com a finalidade de permitir a convivência freqüente e intensa com diferentes gêneros de textos, proporcionando aos estudantes oportunidades de experimentar variados modos de leitura, desenvolvendo, assim, estratégias diversificadas de leitura.
1. Leitura e troca de impressões: Selecione quatro histórias: uma para ser lida na segunda-feira; outra, na terça-feira; outra, na quarta-feira e uma última para a quinta-feira. Proceda à leitura em voz alta da história e, após concluí-la, promova uma conversa para que os estudantes troquem impressões a respeito do conto ou relatem experiências pessoais relacionadas ao tema das histórias lidas, como a raiva, a inveja, o medo, a compaixão etc.
2. Entendendo um Sumário: Desafie-os a localizar em que página está a história que você vai ler naquele dia (providencie cópias do sumário do livro para realizar a atividade).
3. Ficha de Apreciação: A cada dia, após a leitura, peça aos estudantes para registrar o título da história na ficha de apreciação (conforme o modelo abaixo), assinalando a coluna correspondente à avaliação que fizeram da história: gostaram dela, não gostaram?
Na sexta-feira, proceda à escolha da história preferida da turma para ser lida outra vez. Chame esse dia de “Vale a pena ler de novo”. Ler várias vezes uma mesma história é importante para que os leitores iniciantes aprendam a diferença entre ler e contar uma história: ao ler, as palavras não mudam, são sempre as mesmas; ao contar, acabamos usando outras palavras e a história nunca sai exatamente igual.
FONTE: LeituraS é uma publicação da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação, produzida pelo Departamento de Políticas de Educação Infantil e Ensino Fundamental/COGEAM e financiada pelo Projeto 914BRA1113 - UNESCO. Luiz Dantas Luiz Dantas Novembro de 2006


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PD01 - Met EaD - Módulos IV

METODOLOGIA EAD - MÓDULO IV – 1º PEDAGOGIA

IV – Componentes e Recursos da EaD
1. O Material Didático
2. O uso de Tecnologias na EAD
3. Usos Pedagógicos do Material Didático e das Mídias em EaD
V - A arte de estudar a distância

TEXTOS SUPORTE:

PROGRAMA 2 - Integração de diversas mídias: impressas, eletrônicas e digitais
A integração das tecnologias impressas, eletrônicas e digitais
José Manuel Moran(1)

Estamos deslumbrados com o computador e a Internet na escola e vamos deixando de lado a televisão, o vídeo e o jornal, como se já estivessem ultrapassados, não fossem mais tão importantes ou como se já dominássemos suas linguagens e sua utilização na educação. As tecnologias caminham para a convergência, para a integração, para a mobilidade e para a multifuncionalidade, isto é, para poder realizar atividades diferentes num mesmo aparelho, em qualquer lugar, como acontece no telefone celular (falar, enviar torpedos, baixar músicas...).
As tecnologias evoluem em quatro direções fundamentais:
Do analógico para o digital (digitalização);
Do físico para o virtual (virtualização);
Do fixo para o móvel (mobilidade);
Do massivo para o individual (personalização). Carly Fiorina, ex-presidente da Hpackard.
Falaremos, a seguir, de algumas formas de integração das tecnologias na educação: tecnológica, pedagógica, comunicacional e humanística.

Integração tecnológica e pedagógica
A apropriação das tecnologias pelas escolas e universidades passa por quatro etapas, até o momento: a primeira é o acesso, o tê-las à disposição na secretaria, biblioteca, laboratório, salas de aula. Muitas escolas são deficientes, carentes de quase tudo. Apesar dos avanços nestes últimos anos, ainda reina uma profunda desigualdade: muitas escolas não têm acesso às novas tecnologias. Depois do acesso, precisamos de capacitação, de saber o que fazer com todas as tecnologias. Isto também não acontece de forma significativa em muitas escolas: a formação é pontual, burocrática e distante das necessidades reais.
As escolas ainda se sentem fortemente pressionadas pelas expectativas tradicionais das famílias, pela pressão do acesso às melhores universidades, pelo cipoal de normas das várias instâncias administrativas, pela força da cultura educacional convencional, pelo precário investimento público. Mesmo os colégios mais avançados tecnologicamente continuam apegados às aulas com transmissão de conteúdo, fragmentadas em disciplinas, com presença obrigatória e pouca flexibilidade e inovação.
As escolas que têm acesso às tecnologias costumam seguir algumas etapas na sua implantação:
1) Primeira etapa: tecnologias para fazer melhor o mesmo
As tecnologias começaram a ser utilizadas para melhorar o desempenho do que já existia: melhorar a gestão administrativa: automatizar rotinas de matrícula, boletos, notas, folha de pagamento, receitas. Depois ajudam o professor a “dar aula” na organização de textos (conteúdo), nos programas de apresentação, na ilustração de aulas (vídeos, softwares de conteúdos específicos), de avaliação (planilhas, bancos de dados), a fazer pesquisa (bases de dados e Internet). Ao mesmo tempo, os alunos encontram nas tecnologias ferramentas de apoio à aprendizagem: programas de texto, de multimídia, de navegação em bases de dados e Internet, de comunicação, até chegar aos ambientes virtuais de aprendizagem.
2) Segunda etapa: tecnologias para mudanças parciais
Numa segunda etapa, o avanço das tecnologias e o seu domínio técnico-pedagógico propiciam a criação de espaços e atividades novos dentro da escola, que convivem com os tradicionais: utiliza-se mais o vídeo para tornar as aulas mais interessantes; desenvolvem-se alguns projetos na Internet, nos laboratórios de Informática. Professores e alunos criam páginas e divulgam seus trabalhos. Professores propõem atividades virtuais de grupos, listas de discussão2, fóruns3 e mais recentemente blogs4 , programas de rádio (podcasts5), produção de vídeos. Esses programas se sofisticaram com a utilização de plataformas integradas de ensino, que permitem fazer atividades a distância. Mas o importante, o que vale de verdade, continua sendo o currículo, as aulas presenciais, as notas. Típico desta segunda etapa é a divisão entre a grade curricular obrigatória (disciplinas) e as atividades virtuais (projetos, webquests6...) que costumam ser voluntários ou considerados atividades complementares.
A escola continua a mesma, no essencial, mas há algumas inovações pontuais, periféricas, que começam a pressionar por uma mudança mais estrutural. Muitas escolas e universidades não fazem mudanças profundas mas, ao contrário, massificam com as tecnologias o modelo centrado no professor (por exemplo, através de teleaulas), focando mais a transmissão do que a interação e a pesquisa.
3) Terceira etapa: tecnologias para mudanças inovadoras
Numa terceira etapa, as tecnologias começam a ser utilizadas para modificar a própria escola e a universidade: para flexibilizar a organização curricular, a forma de gestão do ensino-aprendizagem. Trabalha-se mais com projetos integrados de pesquisa e há mais atividades semipresenciais. O currículo universitário permite atividades a distância complementares às presenciais. As escolas de Ensino Fundamental e Médio ainda se sentem fortemente pressionadas pelas secretarias de educação, pelo vestibular das universidades, pelas expectativas tradicionais das famílias e pela força da cultura escolar tradicional. Por isso, ainda não estão conseguindo quebrar o modelo padrão: aulas presenciais, presença obrigatória. Mesmo os colégios mais avançados tecnologicamente continuam amarrados, presos no peso da tradição e das expectativas sociais convencionais.
Um dos problemas sérios atuais é a demora das universidades em assumir novos modelos pedagógicos inovadores e mais séria ainda é a defasagem das escolas de educação básica: estacionaram na mesmice. Mesmo com grandes portais de serviços virtuais e franquias não mexem no essencial, que é o processo de ensino-aprendizagem. O virtual, até agora, é um complemento – só – do presencial, que é o que realmente conta e que continua acontecendo da mesma forma.
Integração comunicacional
As tecnologias facilitam a interação, a troca, a colaboração, mas não resolvem sozinhas os problemas de fundo: as dificuldades de entender-nos, de aceitar os outros como são, de compreender o mundo interior próprio e o dos outros. A educação é um processo que possibilita facilitar e expressar a comunicação em níveis cada vez mais profundos e ricos entre todos os participantes, fundamentalmente professores e alunos.
Quanto mais variedade de opções de informação-comunicação, mais fácil é dispersar-se, permanecer na superfície, nas aparências, no agito, nas interpretações da moda. A escola pode transformar-se em um espaço privilegiado de comunicação profunda, rica, aberta, inovadora, crítica; em um espaço de organizar, num clima de confiança e com a mediação dos professores, o caos informativo, de idéias, de avaliações, que precisamos enfrentar diariamente.
As tecnologias permitem hoje, como nunca antes, que professores e alunos se expressem de muitas formas e meios, por escrito, por áudio (rádio, programas de som na internet), por vídeo e multimídia (câmeras digitais, vídeos na Internet). A Internet possui hoje inúmeros recursos que combinam publicação e interação, através de listas, fóruns, chats, blogs. Existem portais de publicação mediados, onde há algum tipo de controle, e existem outros abertos, baseados na colaboração de voluntários. O site www.wikipedia.org/ traz um dos esforços mais notáveis no mundo inteiro de divulgação do conhecimento. Milhares de pessoas contribuem para a elaboração de enciclopédias sobre todos os temas, em várias línguas. Qualquer pessoa pode publicar e editar o que outras pessoas colocaram. Só em português foram divulgados mais de 30 mil artigos na wikipedia. Com todos os problemas envolvidos, a idéia de que o conhecimento pode ser co-produzido e divulgado é revolucionária e nunca antes tinha sido tentada da mesma forma e em grande escala.
A educação escolar precisa compreender e incorporar mais as novas linguagens, desvendar os seus códigos, dominar as possibilidades de expressão e as possíveis manipulações. É importante educar para usos democráticos, mais progressistas e participativos das tecnologias e das mídias, que facilitem a evolução dos indivíduos. O poder público pode propiciar o acesso de todos os alunos às tecnologias de comunicação como uma forma paliativa, mas necessária, de oferecer melhores oportunidades aos pobres, e também para contrabalançar o poder dos grupos empresariais e neutralizar tentativas ou projetos autoritários.
Integração humanística
Um dos grandes pontos de dificuldade da integração deve-se à tensão entre os educadores humanistas e os tecnológicos.
Os humanistas focam a comunicação, a interação, a construção do conhecimento, a criação de comunidades de aprendizagem. Os tecnológicos ressaltam o avanço dos softwares (programas), a velocidade de transmissão, as soluções telemáticas (a distância).
Os que conhecem as tecnologias têm nos prometido soluções, facilidades, grandes mudanças. Os que focam mais as dimensões humanas do ensino-aprendizagem falam mais de “olho-no-olho”, de comunicação afetiva, de valores.
Os humanistas dizem que as tecnologias são importantes, mas, em geral, resistem o quanto podem a uma utilização mais ampla, inovadora. Permanecem ancorados na sala de aula como espaço de resistência, fora do qual não se atrevem a avançar.
Os educadores tecnológicos, impulsionados por administradores em busca de resultados, ampliam mais e mais o número de alunos atendidos simultaneamente, focam predominantemente o conteúdo, a auto-aprendizagem e limitam a interação ao mínimo, para diminuir os custos e aumentar os lucros.
Precisamos dos educadores humanistas, que experimentem formas de interação virtual com a presencial, que nos ajudem a encontrar os caminhos para equilibrar quantidade e qualidade nos diversos tipos de situações educacionais em que nos encontramos hoje. Precisamos que eles nos mostrem como criar novas formas de interação, como incentivar a pesquisa individual e em grupo, a avaliação ao longo do curso, o estabelecimento de vínculos, a discussão aberta de valores importantes para a sociedade.
Precisamos dos educadores tecnológicos, para que nos tragam as melhores soluções para cada situação de aprendizagem, que facilitem a comunicação com os alunos, que orientem a confecção dos materiais adequados para cada curso, que humanizem as tecnologias e as mostrem como meios e não como fins.
É importante humanizar as tecnologias: são meios importantes; caminhos para facilitar o processo de aprendizagem. É importante também inserir as tecnologias nos valores, na comunicação afetiva, na flexibilização de espaço e tempo de ensino-aprendizagem.
Alguns endereços interessantes para educadores na Internet:
http://webquest.sp.senac.br/
http://www.webquest.futuro.usp.br/
http://www.livre.escolabr.com/ferramentas/wq/ajuda/criando.htm
http://www.escolabr.com/virtual/wiki/index.php?title=PodEscola
http://www.escolabr.com/virtual/videoaula/wiki/index.htm
http://www.classinformatica.com.br/projetos/webquest/
http://www.colegiodante.com.br/content/cat20040802_40/new20050301_476/view
http://www.vivenciapedagogica.com.br/
http://www.educarede.org.br/educa/index.cfm
http://www.seed.pr.gov.br/portals/portal/home.php
http://www.moodlebrasil.net/moodle/
http://cadernos.futuro.usp.br/
http://www.cidadedamalta.pt/entrada.html
http://www.sitiodosmiudos.pt/sitio.asp
http://www.eca.usp.br/prof/moran

Notas:
1 Doutor em Comunicação. Diretor Acadêmico da Faculdade Sumaré-SP. Ex-Professor de Novas Tecnologias na Universidade de São Paulo. Textos sobre tecnologias na educação em: www.eca.usp.br/prof/moran
2 Lista de discussão permite que grupos de pessoas se comuniquem entre si continuamente: a mensagem que um envia chega a todas as outras e todo mundo pode responder, comentar ou colocar novas mensagens que chegam por correio eletrônico e que também podem ficar disponíveis numa página na Internet (como em www.grupos.com.br ou em http://br.groups.yahoo.com/).
3 O fórum é uma ferramenta que roda numa página na Internet e que permite a professores e alunos discutir alguns tópicos do curso, através de mensagens que são colocadas na página a qualquer momento, e que podem ser acessadas também a qualquer tempo e de qualquer lugar por quem entra naquela página.
4 Blogs são páginas interativas na Internet, utilizadas principalmente para contar experiências pessoais, de grupo e que também podem ser utilizadas por professores e alunos para aprender. Quando predominam as imagens chamam-se videologs ou vlogs.
5 Podcasts são programas de som, de rádio feitos na Internet e que podem também ser baixados e ouvidos por aparelhos tocadores de música MP3 como o I-POD da APPLE. 6 Webquest é uma metodologia de pesquisa em grupo de forma colaborativa, utilizando principalmente a Internet para buscar as informações. Duas páginas interessantes sobre essa metodologia podem ser consultadas em http://www.webquest.futuro.usp.br/ e em http://webquest.sp.senac.br/

PROGRAMA 3 - Do rádio à TV e ao vídeo em sala de aula
Limites e possibilidades do áudio e do vídeo na educação
Mathias Gonzalez de Souza1

Após uma releitura acurada dos trabalhos relacionados com o uso do rádio na educação permanente e continuada, nas últimas quatro décadas no Brasil, constata-se que os vários programas – desenvolvidos por instituições públicas e privadas, emissoras comunitárias, educativas, universitárias e comerciais – acumularam experiência em capacitar e instruir pessoas, em nível substancial, além de proporcionar entretenimento e lazer. Destacamos a década de 70 como a fase mais profícua do rádio no seu envolvimento com a educação continuada. O rádio foi largamente empregado na oferta de curso supletivo do primeiro e do segundo grau, como também na alfabetização de jovens e adultos, tendo o apoio pedagógico da mídia impressa, por meio de apostilas disponibilizadas em bancas de jornais e livrarias.
No atual momento, com o advento da Internet e das comunicações via satélite, acompanhamos o surgimento da terceira geração do rádio sobre IP (rádios para serem ouvidos exclusivamente pela Internet, também chamados web-rádios) cujo estúdio de produção e transmissão pode ser um simples microcomputador com recursos de multimídia, tendo no entanto alcance mundial.
No Brasil, até a data da elaboração deste texto, havia mais de cem web-rádios cadastradas no site www.radio.com.br, transmitindo programações de diferentes gêneros, tais como: jornalístico, musical clássico, pop e religioso, dentre outros. Apenas três emissoras transmitiam uma programação variada, intercalando música com pequenos blocos de informações culturais e de utilidade pública, abordando temas como saúde, meio ambiente e educação para o trânsito: Rádio Educativa Udesc – Florianópolis, Rádio Educativa Udesc – Joinville e Rádio Educativa Udesc – Lages, todas no estado de Santa Catarina. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão-ABERT informa que, no Brasil, existem aproximadamente 3 mil emissoras de rádio comerciais e 7 mil comunitárias, sendo que esse número deve dobrar nos próximos dez anos.
Apesar de inúmeras iniciativas de entidades estudantis, comunitárias e mesmo particulares, na tentativa de preencherem a imensa lacuna existente no cenário nacional, para o uso do rádio como instrumento educativo, não existe, por parte dos governos – em suas instâncias federal, estadual ou municipal – incentivo à autoria e produção de programas puramente educacionais. Torna-se necessário que a educação informal ou sistematizada, desenvolvida por meio dessas novas tecnologias, possa ser apoiada numa pedagogia adequada e consciente das mudanças da Sociedade da Informação, cada vez mais exigente e ansiosa pelo conhecimento. Percebe-se que o imenso potencial educativo do rádio, quer através do sistema tradicional de transmissão em ondas de freqüência modulada (FM), ondas médias (OM), ondas tropicais (OT) e ondas curtas (OC) ou via Internet, está subutilizado, servindo essa poderosa mídia apenas para reproduzir notícias ou música de qualidade duvidosa, sem atender às reais e urgentes necessidades educacionais do povo brasileiro.
Torna-se necessário, sobretudo, que o rádio possa ser introduzido nas escolas, como recurso pedagógico, propiciando aos educandos a oportunidade de aprender a produzir e selecionar programas educativos de qualidade, exercendo um senso crítico sobre o que ouvem e recebem através das diversas mídias. Os educadores e produtores de programas da rádio devem estar atentos para evitar a mera transposição dos modelos educativos tradicionais que ainda oferecem uma educação bancária, sem questionamentos ou crítica. Devem, por outro lado, enfatizar e destacar o uso pedagógico do rádio, valorizando a aprendizagem colaborativa e participativa, que ressalte os valores individuais e coletivos e estimule os indivíduos a serem co-participantes do próprio processo de evolução, aprendendo a conhecer, a fazer, a conviver e a ser. Torna-se necessário projetar o nosso amanhã em termos educacionais, construirmos e consolidarmos esta sociedade, alicerçada pela ética, justiça e solidariedade, já que essas são competências que se aprendem. Daí entendermos a educação como um processo amplo, um projeto para toda uma vida, um bem ao qual se agregue valor permanentemente e possa ser promovido pelo uso de tecnologias que alcancem a todos.
Ao analisarmos o modelo de ensino tradicional – no qual o professor se posta diante dos alunos que, na maioria dos casos, assistem passivamente, sem direito a questionamentos, limitando-se a anotar aquilo que lhes é dito – verificamos que a introdução de novos recursos midiáticos, como a linguagem radiofônica televisiva, enseja uma maior participação e envolvimento dos aprendizes com os conteúdos disciplinares. Tal envolvimento é reforçador do processo de aprendizagem, já que transfere para o aluno uma maior autonomia e participação em todo o processo.

O áudio e o vídeo como mídias difusoras da aprendizagem

Não existem ainda informações e pesquisas suficientes capazes de embasar a suposição de que a simples introdução de um kit multimídia numa sala de aula, permitindo aos alunos o acesso a Internet, seja por si só uma variável pedagógica capaz de melhorar o desempenho dos envolvidos. Esta intenção preliminar, no entanto, apresentada em sala de aula, gerou visível entusiasmo e curiosidade e pareceu-nos, ao mesmo tempo, ser uma solução bastante acessível, já que não privilegiaria o acesso ao conteúdo a um grupo limitado de estudantes, nem restringiria esse acesso.
Muitas são as escolas que têm estabelecido projetos-piloto, por meio dos quais disponibilizam recursos básicos para instalação de uma rádio-pátio (mesa de som, tocador de CDs, microfone e caixas de som),ou mesmo projetos mais sofisticados, com o uso de computador, placa de captura de som e vídeo, webcams e gravador de CDs. Esses projetos educacionais, envolvendo recursos de áudio, têm produzido impactos visíveis no processo ensino-aprendizagem, além da animação e do entusiasmo com que os alunos e professores se envolvem colaborativamente para a produção de programas educativos, do tipo áudio-aula ou vídeo-aula.
É importante destacar, ainda, que as situações e as tarefas propostas em projetos dessa natureza são corrigidas e adaptadas conforme as necessidades da disciplina e as limitações da escola. Percebe-se que o próprio processo de construção de vídeo ou áudio-aulas, no qual se faz necessário um planejamento, desde a escolha da pauta, a pesquisa, a escolha dos apresentadores, as entrevistas, a gravação e a edição, procedimentos esses previamente estabelecidos, de forma tão completa e independente do trabalho realizado em sala de aula quanto for possível.
Muitos projetos desenvolvidos por escolas do Ensino Médio criaram estruturas próprias para o acompanhamento de atividades a distância, definindo-se a necessidade de utilização de um microcomputador dotado de navegador de Internet (Internet Explorer, Netscape Navigator ou similar), com o aplicativo (gratuito) RealAudio Player instalado. Tal aplicativo (e seu respectivo formato de arquivo) é, em geral, escolhido por dispor de uma excelente relação entre quantidade de áudio e tempo de transferência, evitando assim que os alunos sejam obrigados a aguardar durante dezenas de minutos para acompanhar apenas alguns segundos de aula – algo que seguramente aconteceria com os alunos sem conexão dedicada, caso o conteúdo fosse disponibilizado em vídeo.
Sem lugar a dúvidas, vivemos em uma sociedade de aprendizagem. Esta demanda por aprendizagens contínuas e massivas é uma das características que definem a sociedade atual. Mas não se trata apenas de aprender muitas coisas, senão de aprender coisas diferentes, por meios igualmente diferentes e em um tempo escasso, dado o grande volume de informações que devemos processar, e a velocidade de mudança e inovação, que nos exige o aperfeiçoamento constante ao longo de toda a vida.
Na busca de uma solução eficaz aos desafios propostos pela atual sociedade às organizações educacionais, surge a revalorização das modalidades de educação semipresencial e a distância. Essas modalidades educativas começam a se desenvolver em sua terceira geração, em que os recursos das mídias tradicionais – texto, áudio e vídeo – são potencializados a partir de sua fusão na Internet.
A Internet, essa poderosa mídia digital, otimiza e barateia a distribuição de informação audiovisual e textual, abrindo inúmeras opções educativas e surgindo como alternativa para responder ao escasso tempo de que as pessoas dispõem, à dificuldade de deslocamento no tráfego dos grandes centros urbanos e à impossibilidade de contar com os especialistas necessários em cada região para estruturar cursos e programas de alta qualidade.
Alternativas viáveis para a melhoria dos processos educativos
Uma resposta à complexidade dos processos que envolvem o ensino-aprendizagem e a urgência em formar indivíduos competentes, que a sociedade atual demanda, depende da criação estratégica de um espaço de produção e difusão de conhecimentos atualizados, em linguagem didática, através do uso de todo o potencial das novas tecnologias de comunicação e informação. Aí reside a inovação e a excelência em programas e cursos que envolvam o uso dos recursos midiáticos de massa, como o rádio, a TV e a Internet, ou ainda a integração de todas elas. A sala de aula é a célula-máter, a incubadora de tais projetos.
É fundamental que as escolas proporcionem uma oferta educativa que se constitua a partir do diagnóstico das necessidades de formação da população alvo e de suas características culturais, elemento central do planejamento educativo e das estratégias de comunicação, com ampla utilização de todos os recursos tecnológicos existentes, e que se caracterize pela elaboração de materiais diversos e adaptados a cada uma das realidades em que se desenvolvem as atividades educativas, não só no que diz respeito à elaboração de conteúdos conceituais, mas também às experiências de aprendizagem e às atividades do plano de ensino.
Espera-se que os gestores escolares apostem em estratégias pedagógicas dinâmicas, com programas que sejam atualizados permanentemente, respondendo ao acelerado ritmo de mudança da sociedade do conhecimento e do mercado de trabalho atual, superando assim o anacronismo em que, cedo ou tarde, caem os conteúdos escolares do modelo de ensino presencial.
Percebe-se que as instituições de ensino – quer sejam do nível básico, fundamental ou médio, ao desenvolverem uma sólida estrutura tecnológica e comunicacional, articulada por uma estratégia pedagógica que considere ações desenvolvidas para melhorar a comunicação entre os alunos e os docentes – têm obtido uma resposta positiva global no rendimento dos alunos e dos professores. Tais ações elevam a auto-estima de todos e de cada indivíduo, transformando-os em verdadeiros protagonistas de suas atividades de ensino e aprendizagem.
Ofertas educativas possibilitam tirar o estudante do marasmo e do tédio característicos da educação tradicional, permitindo-lhe criar, inovar e compartilhar experiências com os demais colegas, e têm produzido resultados altamente positivos. As trocas e o trabalho colaborativo em torno de projetos, tais como a construção de uma rádio-web para a escola, ou produção de um vídeo retratando a realidade do bairro, dota o estudante de um poder adicional de transferência a diversas situações da vida, constrói pontes para a formação de cidadãos conscientes de seus direitos, de seus deveres e, sobretudo, dos seus limites e potencialidades.
Uma proposta pedagógica que permita construir aulas globais, recorrendo aos especialistas de diferentes instituições, cidades e mesmo países, na formação de um corpo de professores altamente especializados em cada uma de suas áreas de conhecimento, provavelmente levará a uma difusão mais rápida e melhor do conhecimento, com ganhos para todos. Através de atividades diversificadas e abertas, tais estratégias podem favorecer a transferência de saberes aos mais variados contextos profissionais, promovendo a auto-aprendizagem, criando possibilidades para que o aluno aprenda a aprender e concedendo-lhe plena autonomia.
As linguagens atrativas e sedutoras do rádio e da televisão podem e devem ser apropriadas por alunos e professores e fazer parte do universo cotidiano educativo, a partir de projetos criativos e inovadores em sala de aula. Desta forma, a educação brasileira poderá enfrentar o desafio de transformar as velhas e empoeiradas salas de aula em ambientes atraentes e agradáveis aos nossos jovens, despertando-lhes o desejo de para lá se dirigirem, com uma renovada emoção de se sentirem parte de um projeto real de vida e não apenas agentes passivos desse processo.


Referências Bibliográficas
BIANCO, Nélia R. Del. Cadernos de Comunicação – Avaliação do Programa Escola Brasil. Brasília, Ministério da Educação, 2000.
BRUM, Eron. Política, o palco da simulação. Santos, A Tribuna, 1988.
COSTELLA, Antonio. Comunicação - do grito ao satélite. São Paulo: Mantiqueira, 1978. p. 36-120.
CORRÊA, Arlindo Lopes (ed.). Educação de massa e ação comunitária. Rio de Janeiro: AGGS/MOBRAL, 1979.
CUNHA, Célio da. A pedagogia no Brasil. In: LARROYO, Francisco. História geral da pedagogia. São Paulo: Mestre Jou, 1974. Apêndice, p. 880-915.
ESPINHEIRA, Ariosto. Rádio e Educação. São Paulo, Melhoramento, 1934.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 3a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1975.
FREITAG, Bárbara. Escola, estado e sociedade. 6a ed. São Paulo: Moraes, 1986.
GONZALEZ, Mathias. Fundamentos de Tutoria em Ead. São Paulo, Avercamp, 2005.
LUCENA, Carlos. A Educação na Era da Internet. Rio de Janeiro: Clube do Futuro, 2003.

Ministério da Educação e Cultura/Movimento Brasileiro de Alfabetização. Educação permanente e educação de adultos no Brasil. Rio de Janeiro: Bloch, 1976.

Notas: 1 Escritor, psicopedagogo, gestor de Planejamento Educacional e Coordenador do Rádio Escola na Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação


PROGRAMA 4 - Comunidades de aprendizagem em Rede
Liane Margarida Rockenbach Tarouco1

Antes de iniciar a discussão da constituição e da manutenção de comunidades de aprendizagem em rede, cabe uma breve análise das condições atualmente existentes no Brasil para ensejar e apoiar as comunidades de aprendizagem em rede. A disseminação do acesso à Internet no Brasil segue crescendo e a taxa de crescimento aumentou, conforme se pode perceber pelo gráfico da figura 1, que consolida dados da pesquisa domiciliar realizada pelo IBGE (2005).



Fonte: Dados do levantamento domiciliar do IBGE (2005).
Isto representou, em 2005, cerca de 7.2 milhões de domicílios com microcomputador e acesso à Internet, num total de aproximadamente 53 milhões de domicílios.
Conforme destacado por Vecchiati (CGI/BR):
“Ainda que poucas pessoas percebam, estamos vivendo uma grande revolução. É uma revolução sutil, silenciosa, que já interfere e vai interferir muito mais na vida do cidadão. Ainda mais sutil que a interferência da TV na vida do ser humano. A Internet é a grande responsável por isso. Se compararmos com a revolução trazida pela televisão, veremos que o poder da Internet é muito maior: enquanto a TV possibilita uma comunicação de via única, a Internet oferece duas vias, o que permite a interação e a integração em rede das comunidades que dela participam.”
Mesmo nos casos em que não há computador e acesso à Internet em casa, o acesso está sendo buscado em outros locais, como mostra o gráfico seguinte, com a tabela resumindo os locais de acesso à Internet nos últimos 3 meses (CGI/BR).
De onde acessou a Internet nos últimos 3 meses


TIC (%)
Em casa 10,3
No trabalho (quando diferente de casa) 6,5
Da escola 5,2
Da casa de outra pessoa 4,3
Centro público de acesso gratuito 0,5
Centro público de acesso pago 4,3
Não acessou a Internet nos últimos 3 meses 75,6
Dos 24,4% entrevistados que acessaram a Internet nos últimos 3 meses, 10,3% acessaram em casa, mas apenas 7,7% têm acesso exclusivamente em sua residência. A maioria – 14,1% – não acessou a Internet de casa, mas de outros locais fora de seu domicílio, principalmente do trabalho, escola, casa de outra pessoa e centros de acesso pago.
Um outro resultado interessante da pesquisa do CGI/BR foi revelar que as gerações mais jovens, mesmo tendo menos renda, valorizam mais o computador e, por isso, dedicam parte maior dos seus recursos para a aquisição de um computador. Se alguém perguntar a um jovem, atualmente, o que pensa fazer para melhorar suas possibilidades no mercado de trabalho, receberá como resposta, na maioria esmagadora das vezes, que ele pensa fazer um "curso de computador" para conseguir um emprego melhor. A busca de alternativas de treinamento e educação através da Internet é, sem dúvida, uma motivação dos usuários e a pesquisa do CGI/BR aponta que, dentre os usuários que acessam a Internet, a comunicação e a educação ocupam posições majoritárias:
Atividades desenvolvidas na Internet concernentes a treinamento e educação, em percentual (%)
Treinamento e educação 56,45
Realizar atividades escolares 47,05
Outras atividades relacionadas à educação 29,39
Cursos de extensão e pós-graduação 4,69


Atividades desenvolvidas na Internet- Comunicação - Percentual (%)
Comunicação 81,67
Enviar e receber e-mail 70,51
Enviar mensagens instantâneas 34,74
Participar de chats 28,21
Participar de sites de comunidades e relacionamentos (ex. Orkut) 21,97


O que este panorama permite entrever? Foi constatado, na pesquisa do CGI/BR, que as gerações mais novas estão vislumbrando uma perspectiva de melhoria associada ao acesso à Internet. Esta percepção intuitiva dos jovens é corroborada por diversos autores, que ressaltam ser a educação a pedra básica sobre a qual deve ser ancorado todo o esforço de desenvolvimento e aprimoramento da qualidade de vida dos povos. E uma das formas de promover um melhor nível de escolarização, bem como a readaptação e a recapacitação de quem que já está no mercado de trabalho, é através da educação continuada. A educação formal e a educação continuada podem ser ensejadas através da Internet, mas a forma como o processo de ensino/aprendizagem deve passar a ocorrer neste contexto é, sem dúvida, diferente de como tem sido desenvolvido tradicionalmente.
Como alunos e professores podem e devem passar a atuar? O novo papel do estudante passa a ser mais ativo, autodirigido (heutagogia, conforme referido por Paloff, 2005), em que ele deve ser capacitado a aprender a aprender usando interações colaborativas. Mudanças precisam ocorrer e uma das mais significativas é uma ampliação no processo de aprendizagem colaborativa. O uso da Internet potencializa a aprendizagem colaborativa, e o aprender e o comunicar constituem duas das principais atividades dos usuários da Internet, conforme anteriormente destacado. Na aprendizagem colaborativa: o aluno aprende com seus pares e o educador orienta, medeia e anima o processo de construção do conhecimento (Lotito 2005). Com isso, cria-se oportunidade para o trabalho em rede e o desenvolvimento da capacidade de cooperar, aprender, acessar e produzir informação, que será uma habilidade exercida não apenas na fase formal do processo educacional, mas principalmente no decorrer da carreira de cada um, pois a educação continuada constitui uma demanda imperiosa do mercado de trabalho, em constante transformação. Mas o aprender neste novo contexto e, em especial, o aprender em grupo requerem novas habilidades. O surgimento de comunidades de aprendizagem em rede representa uma oportunidade e uma alternativa indispensável neste novo contexto de aprendizagem.
Lotito destacou também que as principais características de uma Comunidade Virtual de Aprendizagem são:
1) A comunicação não depende do tempo nem do local, o que oportuniza a participação de quem está envolvido em outras atividades, profissionais, acadêmicas, ou mesmo pessoais, que a inviabilizariam.
2) A comunicação se dá entre muitas pessoas e, neste contexto, a realimentação é mais rica e contextualizada.
3) O produto é coletivo. O conhecimento humano é essencialmente coletivo e a vida social constitui um dos fatores essenciais da formação e do crescimento dos conhecimentos pré-científicos e científicos.
4) Os participantes são ativos. Trazem suas experiências e conhecimento.
5) A escrita é estimulada. E esta demanda pode contribuir para levar à redução do problema do analfabetismo funcional. Adicionalmente, também prepara para a sociedade, em que o fator de produção relevante é o conhecimento, e que requer um indivíduo conhecedor, informatizado, digital, que interpreta linguagens icônicas.
6) A comunicação ocorre por meio do computador conectado à Internet. As ferramentas atualmente disponíveis vão bem além do correio eletrônico que, no início, era a base da interação das comunidades de aprendizagem em rede. Atualmente chats são utilizados em formas puramente textuais ou em ambientes gráficos, como o Palace, com cenários onde avatares representam os participantes do grupo, que assumem personalidades e, através dos mesmos, interagem no grupo (figura 2). As mensagens instantâneas constituem, atualmente, não apenas uma ferramenta de lazer, mas são utilizadas no suporte a estudantes e na comunicação síncrona entre os integrantes da comunidade e já agregam recursos multimídia (intercâmbio usando voz, vídeo e co-trabalho em quadro branco)
7) Pode haver um mediador que anima, incentiva e viabiliza o debate, fazendo evoluir a comunicação em um sentido. Este constitui um papel relevante para os professores e tutores no contexto das comunidades de aprendizagem em rede: estimular, acompanhar a pesquisa, debater os resultados. Orientar, estimular, relacionar, mais que informar, é a função primordial do mediador. Faz-se necessário, neste contexto, um modelo de gestão adhocrático, conforme referido por Fichmann (2006), no qual são reduzidos os ingredientes de formalidade e impessoalidade, oferecendo maior autonomia aos atores que participam de um projeto, e com hierarquia imprecisa, na qual as pessoas mudam de papel de uma situação para outra.
8) A motivação dos participantes é muito importante. Um dos pilares desta motivação é uma sensação de reciprocidade, que passa a vigorar na comunidade de aprendizagem em rede, quando cada participante sente-se recompensado pelo retorno que o grupo proporciona. A recompensa pode ser cognitiva (aprendeu com o grupo e busca dar continuidade ao processo de aprendizagem colaborativa) mas pode também ser afetiva e/ou emocional (recebe reconhecimento do grupo).
Figura 2: Ambiente de chat gráfico

A capacidade de procurar informação relevante e discriminar o que é importante do que é acessório, ou mesmo irrelevante, também constitui uma das habilidades requeridas neste cenário. Uma nova forma de ler, que não mais demanda versões impressas de documentos para serem trabalhados e que emprega práticas de leitura dinâmica, é necessária para perceber com eficiência o que interessa e que precisará ser objeto de atenção mais intensa. Esta forma de buscar informação, na qual as páginas da Internet são velozmente recuperadas e avaliadas em relação ao seu potencial de usabilidade é, ao mesmo tempo, uma característica positiva e negativa. A busca incessante de mais e mais informações para posterior aproveitamento pode levar a um esgotamento do processo nesta fase. O fenômeno, referido com Infoglut, leva a uma voraz acumulação de informações, sem que uma apropriada análise sobre as mesmas seja realizada. Esta voracidade derivou de um processo em que a carência de informação era intensa para uma nova situação na qual há abundância de material, revistas on-line, tal como a RENOTE (2006) e todo o acervo que a CAPES (2006) possibilitou em seu portal Periódicos, com acesso on-line a revistas tradicionalmente disponibilizadas apenas em forma impressa. Isto nos leva à seguinte indagação: Como desacelerar este processo, para ensejar a reflexão, que é essencial para a aprendizagem significativa? Novos hábitos de trabalho em grupo, fluência com ferramentas de comunicação, cooperação e coordenação precisam ser aprendidos e exercitados.
O trabalho do grupo Mídia Informática e Internet do Programa de Formação em Mídias na Educação da Internet buscou criar condições para desenvolver esta fluência, com as ferramentas de autoria pelo professor, para que ele possa criar condições e estímulo para a nova forma de ensinar e aprender que utiliza comunidades de aprendizagem em rede.
Referências Bibliográficas
CAPES. Portal de periódicos. Disponível em http://www.capes.gov.br. Acessado em outubro de 2006.
CGIBR. Pesquisa Sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação no Brasil 2005.Comitê Gestor da Internet no Brasil.
IBGE. Pesquisa domiciliar. Disponível em http://www.ibge.gov.br . Acessado em outubro de 2006.
Fichmann, Silvia. Gestão, transdisciplinaridade e comunidade virtual de aprendizagem: uma utopia pragmática. São Paulo: Centro de Educação Transdisciplinar – CETRANS/ Escola do Futuro da USP – EFUSP.
Lotito, Márcia. Comunidade virtual de aprendizagem: o ambiente do portal educarede. 2005. Disponível em http://www.educarede.org.br. Acessado em Outubro de 2006.
Palloff, Rena e Pratt, Keith. O aluno virtual. Porto Alegre: ARTMED, 2004.
RENOTE. Revista Novas Tecnologias na Educação. UFRGS/CINTED. Disponível em http://www.cinted.ufrgs.br/RENOTE/ Acessada em 2006.

Nota:
Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS/CINTED.
PROGRAMA 5 - A importância da gestão nos projetos de EAD
O papel da gestão na integração do uso das mídias na escola e as possibilidades da formação a distância na formação do educador

Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida1
Maria Elisabette Brisola Brito Prado2

Fica decretado que, a partir deste instante,
Haverá girassóis em todas as janelas,
Que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra,
E que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
Abertas para o verde onde cresce a esperança! (Trecho do Poema “Estatutos do Homem”, de Thiago de Mello).


A temática deste texto evidencia a necessidade de abordarmos três conceitos que se apresentam de forma inter-relacionada: a gestão, a integração das mídias na escola e a formação a distância do educador.
O que é a gestão?
O conceito etimológico de gestão indica vários sentidos relacionados com a ação de gestar, trazer, gerir, administrar, dirigir, proteger, abrigar, produzir, criar, ter consigo, nutrir, manter, mostrar, fazer crescer, digerir, pôr em ordem, classificar... (Houaiss, 2001).
De acordo com Almeida (2006), a noção atual de gestão vai muito além da concepção de organização administrada como máquina, cujo funcionamento é facilmente controlado e abrange tanto a gestão de informações e conhecimentos gerados na própria instituição ou advindos de outros contextos, como as complexas relações que se estabelecem na diversidade de interesses e pontos de vista, englobando as múltiplas dimensões constitutivas do ser humano (cognitivas, sociais, políticas, pedagógicas, técnico-administrativas).
Os processos de gestão constituem a tessitura de redes de significados e sentidos, que articulam as competências e habilidades individuais daqueles que atuam na instituição com as práticas, valores e crenças desse contexto e, ainda, com inúmeros elementos que interferem continuamente em sua vida e funcionamento.
Portanto, a concepção de gestão enfatiza a práxis humana, considerando que os sujeitos se constituem no trabalho. À medida que desenvolvem suas produções, os sujeitos se transformam, produzem sua realidade e são transformados por ela.
A questão que se coloca é qual a relação entre a gestão e o uso integrado das mídias na prática pedagógica?
O uso das mídias no contexto escolar requer um novo aprendizado do professor, que vai além do saber operacional dos recursos midiáticos (Prado, 2003; Almeida, 2005). Relembrando a chegada dos computadores nas escolas, o maior desafio era propiciar ao professor saber usar pedagogicamente os recursos computacionais de forma contextualizada com os conteúdos curriculares. O que se desejava era que a incorporação do computador na escola ocorresse de fato, demandando novas práticas do professor e viabilizando aos alunos novas formas de aprender e de representar o conhecimento. De igual maneira se desejava fazer o uso, com sentido pedagógico, de outras mídias, como a TV, o rádio, DVD, máquina digital, a filmadora, a Internet...
Isso aconteceu? De uma maneira diversificada e pontual podemos dizer que sim. Algumas experiências, mais localizadas, aconteceram revelando resultados bastante positivos em termos de propiciar ao aluno o aprendizado baseado na autoria, criatividade, produção de conhecimento e na aprendizagem por meio da exploração de simulações. Tudo isso potencializado pelas características inerentes da tecnologia digital de expressar o pensamento, registrá-lo e recuperá-lo a qualquer tempo e de qualquer lugar, permitindo atualização constante e levando a fazer, analisar e refazer esse processo continuamente.
Entretanto, também aconteceu ou ainda acontecem práticas de utilização das mídias na escola de maneira dicotomizada das demais atividades, ou mesmo como um apêndice da intencionalidade pedagógica do professor. Muitas vezes, um assunto é trabalhado na sala de aula usando as tecnologias mais habituais como livro, caderno, caneta... E, num outro momento, fragmentando o próprio trabalho pedagógico, o aluno usa, por exemplo, o computador para digitar algo, buscar uma informação ou simplesmente fazer uma cópia, sem estabelecer relação com os conteúdos estudados na sala de aula. Quando isto acontece, o uso das mídias e tecnologias acaba empobrecendo o processo de aprendizagem do aluno e deixa de trazer inovações para a prática pedagógica.
Isto significa que dar acesso aos recursos tecnológicos e midiáticos à comunidade da escola (alunos, professores, diretores, coordenadores, funcionários) é necessário e fundamental, entretanto, não é suficiente. É preciso ir além, potencializando a apropriação destes recursos com significado para quem os utiliza. Dito de outra forma, permitindo que cada protagonista do contexto escolar aprenda a operacionalizar tais recursos, reconhecendo as especificidades das diferentes mídias e, principalmente, as implicações envolvidas na sua utilização, na perspectiva da função e do papel que cada protagonista desempenha, empregando-as para resolver os problemas que enfrenta em seu cotidiano e para atender às suas necessidades e aos seus interesses.
Tratando-se do professor, a apropriação das diferentes mídias na sua atuação em sala de aula requer a reconstrução do conhecimento sobre a própria prática pedagógica. Nesse sentido, envolve repensar a concepção de aprendizagem, a sua coerência em termos de ensino e abordagem pedagógica e o conhecimento curricular sendo trabalhado de forma articulada com os recursos das mídias e tecnologias, o que indica tanto a necessidade de dominar as operações e funcionalidades básicas das tecnologias, como a necessidade de entender a linguagem das mídias (Prado, 2005).
Com a integração das tecnologias e mídias na prática pedagógica se evidencia a importância de o professor compreender os processos de gestão da sala de aula, no que se refere ao ensino, à aprendizagem e às estratégias que desenvolve, na criação de situações que favoreçam ao aluno integrar significativamente os recursos das tecnologias e mídias, como forma de trabalhar a busca de informação, a pesquisa, o registro, as novas linguagens de expressão do pensamento, comunicação e produção do conhecimento. De fato, este caráter complexo traz um outro sistema de representação simbólico, que provoca a conscientização do professor sobre a necessidade de desenvolver a gestão da prática pedagógica e dos recursos que utiliza.
No entanto, fazer a gestão da prática pedagógica é algo novo para o professor. Não podemos nos esquecer de que o professor foi preparado para planejar o ensino, dar aula, transmitir informações, passar e corrigir exercícios e provas para os alunos. E agora, diante de um novo cenário da educação, ele precisa lidar com a rapidez e a abrangência de informações, de dados, com o dinamismo do conhecimento e com a integração de tecnologias e diferentes formas de representação. Evidencia-se uma nova organização de tempo e espaço de aprendizagem, que ultrapassa a estrutura da instituição escolar, bem como a diversidade de situações que exigem do professor um posicionamento crítico e reflexivo para fazer suas escolhas e definir suas prioridades em relação às atividades a desenvolver, de acordo com as condições da realidade em que atua e dos recursos de que dispõe, desenvolvendo estratégias criativas e novas aprendizagens.
As novas relações com o saber que as tecnologias e mídias propiciam, principalmente com o acesso à Internet, potencializam a articulação da escola com outros espaços produtores de conhecimento, desencadeando mudanças substanciais em seu interior, apontando para a criação de um espaço complexo, aberto e flexível, no qual a gestão da prática pedagógica e a aprendizagem se desenvolvem em um processo colaborativo de enfrentamento das problemáticas contextuais, por meio de trocas recíprocas, respeito, co-responsabilidade e (re)construção de conhecimento. Assim, a escola vai recuperando seu lócus de espaço aglutinador de saberes, produtor e disseminador de conhecimentos, que se alarga para além de seus muros e adentra os espaços virtuais, ignorando as fronteiras geográficas e temporais.
Daí a necessidade e a urgência de propiciar a formação continuada e em serviço de educadores, para que possam identificar e analisar as formas adequadas e construtivas de fazer a gestão da sala de aula, que pode se abrir para o mundo com o uso das tecnologias e mídias integradas nas dinâmicas das situações de aprendizagem dos alunos. E tal formação pode ser viabilizada por meio de ambiente virtual de aprendizagem.
Por que formação a distância, via ambiente virtual?
As questões relacionadas à EAD, até um tempo atrás, predominavam em torno de assumir uma posição a favor ou contra, uma vez que essa modalidade de ensino trazia uma preocupação para os educadores em termos da sua qualidade e, conseqüentemente, da aprendizagem do aluno. No entanto, no final da década de 90, com o avanço da tecnologia e a disseminação da Internet, a EAD ganhou um novo foco de análise, evidenciando novas questões e envolvendo, de forma híbrida, aspectos de caráter tecnológico e educacional. Com isso, as preocupações passaram a girar em torno das diferentes abordagens educacionais de EAD veiculadas com o suporte das plataformas computacionais, denominadas de ambientes virtuais.
Sob esse enfoque, pode-se destacar um leque de possibilidades que transitam desde uma abordagem de EAD baseada no broadcast (distribuição de informações) até outras abordagens que priorizam as interações e o processo de construção de conhecimento. A nova perspectiva de EAD é denominada por Valente (2000) com o “estar junto virtual”, que se caracteriza por uma concepção de ensino que enfatiza o ato de aprender por meio das interações e no desenvolvimento de atividades reflexivas e de autoria, favorecendo o processo de reconstrução do conhecimento. Na abordagem do “estar junto virtual”, a mediação pedagógica é centrada no acompanhamento e na interação do professor com o aluno e entre os alunos. O professor, com base no acompanhamento investigativo do processo de aprendizagem dos alunos, faz a gestão da prática pedagógica no contexto virtual, recriando novas estratégias, desafiando cognitivamente os alunos na busca de superações de conflitos e de atingir novos patamares de aprendizagem (Valente, Prado e Almeida, 2003; Almeida, 2005; Prado e Almeida, 2006).
No contexto virtual, evidencia-se uma nova maneira de aprender que ocorre a partir do estabelecimento da rede colaborativa entre os participantes, a qual vai sendo construída por meio das interações e das produções coletivas que acontecem nos vários espaços virtuais propiciados pelas diferentes ferramentas tecnológicas disponíveis. Nessa rede de aprendizagem, o aluno expressa e registra suas idéias, compartilha suas reflexões e produções via escrita, lê os registros deixados pelos colegas, apropria-se deles e faz novas intervenções, recriando as idéias originais. Assim, a interação em rede proporciona vivenciar diferentes momentos de compartilhar significados, fazer releituras e desenvolver a meta-reflexão. É nessa rede de interações que a importância do papel do outro fica evidenciada, enquanto interlocutor das ações e reflexões práticas e teóricas (Rossetti-Ferreira, Amorim, Silva e Carvalho, 2004). Nessa perspectiva, a rede se sustenta e se enriquece pela diversidade de olhares, potencializando a cada um comparar, estabelecer novas relações, diferenciações e vivenciar situações reflexivas e criativas que envolvem buscas coletivas e em grupos de soluções e de produção de conhecimento (Almeida e Prado, 2006).
Outra possibilidade oferecida pelo contexto da EAD é a formação continuada de educadores, que pode ser viabilizada na ação, ou seja, contemplando nas atividades do curso as reflexões e intervenções sobre os elementos constituintes do cotidiano do educador e de sua prática profissional. O aprendizado na ação – ou contextualizado – lida com os fatos reais. Essa característica, sendo um dos princípios do curso de formação continuada, favorece ao educador reconhecer a funcionalidade daquilo que está aprendendo-fazendo e, conseqüentemente, atribuir significado e sentido para a própria aprendizagem (Prado e Valente, 2002; Almeida, 2004). Além disso, enquanto membro de um grupo em formação, o educador tem os colegas do curso como parceiros, com quem compartilha experiências, recebe apoio diante de dificuldades e espelha-se em suas conquistas. Tem também, no professor responsável pela formação, a orientação para enfrentar os desafios e tomar consciência de que o desenvolvimento da autonomia, propiciado pelas novas aprendizagens, lhe dá a sensação de empoderamento sobre a gestão da sala de aula.
Essa forma de aprender permite ao profissional da prática ter uma compreensão localizada em relação ao universo da sua atuação, o qual poderá ser ampliado por meio do estabelecimento de novas relações, envolvendo diferentes níveis de influências que atuam em seu entorno de ação. Portanto, a compreensão ampliada completa as compreensões localizadas e abre caminho para novas sistematizações da prática e da teoria (Prado e Valente, 2002; Prado, 2003).
Daí a necessidade de entender que as novas características de aprendizagem implicam novas estratégias para a elaboração da proposta de um curso a distância, a qual se desenvolve ancorada em princípios educacionais articulados com práticas comunicacionais viabilizadas pelas tecnologias de suporte e mídias incorporadas ao curso. Entretanto, o desafio é grande quando as propostas de cursos envolvem maior quantidade de alunos e de turmas. Há necessidade de ter estrutura tecnológica e uma logística de trabalho pedagógico e de gestão muito bem articulada para lidar com o quantitativo de alunos, mantendo o qualitativo da formação dialógica, contextualizada e reflexiva.
Para compatibilizar os princípios educacionais do “estar junto virtual” com as características de uma nova configuração contextual de curso em grande escala, é necessário fazer a composição das equipes de concepção e desenvolvimento de projetos de EAD, considerando-se as distintas competências exigidas para a produção e o desenvolvimento de cursos mediatizados por tecnologias, os novos papéis que desempenham e o trabalho em parceria entre os componentes de diferentes áreas de domínio (Ferreira, F.C. et al., 2005; Prado e Almeida, 2005). Além de envolver a participação de diversos profissionais, é necessário recriar novas estratégias de trabalho na equipe e entre as diversas equipes, bem como formas de gerenciamento da documentação gerada no curso durante a sua realização, incluindo instrumentos de acompanhamento, dados estatísticos, relatórios e avaliações em processo para realimentar as análises e as decisões que possam garantir, no quantitativo, o aspecto qualitativo da EAD. E para isto é essencialmente necessário fazer a gestão de EAD numa perspectiva de rede. Uma rede humana articulada que veicula interações e (re)organização no contexto da rede tecnológica e permite estabelecer conexões entre o olhar micro sobre as necessidades e participações individuais com a visão macro sobre o panorama da globalidade, para compreender a complexidade da gestão em EAD e agir na emergência das demandas contextuais, respeitando as diretrizes políticas e as prioridades institucionais.
Referências Bibliográficas
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VALENTE, J. A.; PRADO M. E. B.; ALMEIDA, M. E. B. de (orgs.). Formação de educadores via distância. São Paulo: Avercamp, 2003.
Notas:
Licenciada e Bacharel em Matemática; Mestre e Doutora em Educação pela PUCSP; Professora do Departamento de Ciência da Computação e do Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo, da PUCSP. Coordenadora do Projeto Gestão Escolar e Tecnologias, desenvolvido pela PUCSP, em parceria com a Microsoft Brasil e com Secretarias de Estados de São Paulo, Goiás e CONSED com outros nove Estados. Pesquisadora e consultora na área de formação de educadores, tecnologia na educação, educação a distância e inclusão digital.
2 Pedagoga e Mestre em Psicologia Educacional pela Faculdade de Educação da UNICAMP, Doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUCSP. Atualmente participa da Equipe Gestora do Projeto Gestão Escolar e Tecnologias, desenvolvido pela PUCSP, em parceria com a Microsoft Brasil e com Secretarias de Estados de São Paulo, Goiás e CONSED com outros nove Estados. Atua como pesquisadora colaboradora do NIED-UNICAMP e como consultora na área de formação de educadores, tecnologia na educação e em educação a distância.

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